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Proibida a presença de mulheres nos estádios, no séc. XXI

Segundo relatos da imprensa internacional, a jovem iraniana Sahar Khodayari, formada em ciências da computação, foi detida quando assistia ao jogo de futebol do Esteghlal contra o Al Ain, a contar para a Liga dos Campeões da Ásia, no Estádio Azadi. Estava disfarçada de rapaz e, na altura da sua detenção, esta adepta do Esteghlal envergava uma peruca azul e um longo casaco e, daí, ter ficado conhecida como “a garota azul”, as cores do seu clube de coração! Logo após a sua detenção, em Março deste ano, cumpriu dois a três dias de prisão. Porém, em Setembro, havia de saber que corria o risco de vir a ser condenada a uma pena de prisão de seis meses. Diante dessa possibilidade, Sahar Khodayari imolou-se pelo fogo, diante do tribunal. Segundo relatos da imprensa, histórias como a desta jovem são frequentes no Irão, na actualidade.

Um outro exemplo, que a história da Antiguidade Clássica nos recorda, havia de ter um desfecho bem mais favorável, em circunstâncias idênticas. Esta lenda transporta-nos até a um tempo bem longínquo, o séc. V antes de Cristo. Essa história fala-nos de uma tal Ferenícia ou, segundo outros, Calipatira, filha de um ilustre campeão olímpico, Diágoras. Esta mulher havia tomado uma decisão arriscada: assistir à corrida a pé de seu filho Pissírrodo. Para isso, vestiu a túnica de treinador e, disfarçada de homem, conseguiu entrar no estádio. Quando o filho ganhou a corrida, a mãe, louca de alegria, correu a abraçá-lo. Deixou o compartimento reservado aos treinadores e saltou sobre a pista. A túnica, porém, prendeu-se-lhe no gradeamento e o seu corpo de mulher ficou exposto aos olhares da multidão. Capturada imediatamente, quiseram aplicar-lhe a penalidade prevista: ser precipitada do alto do monte Tipeu, a sudeste de Olímpia, da banda de lá do rio Alfeu. Os Juízes do Senado Olímpico decidiram poupar-lhe o castigo da morte certa. E fizeram-no para honrar, em primeiro lugar, o sublime amor de mãe que tudo arriscou para ver o seu filho a competir. Por outro lado, esta sua decisão mostrava compreensão pelo impulso irresistível da conduta proibida, pois nas suas veias corria o sangue de uma casta de heróis habituada às coroas do triunfo nos grandes certames desportivos das olimpíadas. Com efeito, segundo narra o geógrafo grego Pausânias (Descrição da Grécia, V e VI), este perdão resulta da memória que todos guardavam de seu pai Diágoras (celebrado pelo poeta grego Píndaro, VII Ode Olímpica), dos seus irmãos Acussilau e Damagito, e de seu próprio filho, Pissírrodo, todos eles campeões olímpicos.

Mas nesta história de heróis uma outra reforça ainda a justiça desta decisão do Senado Olímpico. Diz-se que, continua António Freire, S.J. (Grécia Antiga e Grécia Moderna¸Porto, 1965, pp. 58-59), na memória de todos haviam de estar ainda bem vivas as circunstâncias que rodearam a morte do velho campeão Diágoras. Estava ele no estádio a assistir à vitória dos seus dois filhos; coroados, logo acorreram para a sua presença, depositando na cabeça do ancião as suas coroas de oliveira e com ele aos ombros deram a volta de consagração ao estádio. Estavam eles a passar em frente à delegação de Esparta quando alguém dali gritou a todos os pulmões: «Vais morrer, Diágoras. Não subirás ao Olimpo». E a estrondosa ovação dos espectadores inebriados por todo aquele espectáculo estridente acabaria em patética procissão funerária. Escreve o Pe. António Freire: «O grito foi tão certeiro ao coração do velho, que este morria, instantes depois, em pleno estádio, envolto em manto de glória e do júbilo. A procissão triunfal acabou em cortejo fúnebre, e as aclamações ruidosas dos espectadores, que o julgavam vivo, foram o adeus final».

Quem acaba de ler este texto, por certo pode dizer que esta seria uma história que o mestre jesuíta, o Pe. António Freire, S.J., contaria com especial entusiasmo. É assim que o queremos recordar, quando se avizinha a data do centenário do seu nascimento, no próximo dia 18 de Novembro. Com o seu ar descontraído, inculcalva ele nas mentes de seus tenros alunos verdades inabaláveis e princípios de vida. Com abundante ciência. Temente a Deus, mas sem medo entre os Homens. Obrigado Pe. Freire. Os teus discípulos não esquecem.


Autor: António Maria Martins Melo
DM

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2 novembro 2019