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Privilégios

Nisto de privilégios, naturais ou adquiridos, cada qual tem os seus, bem como o jeito, mais ou menos sofisticado ou vulgar, de os alcançar; e porque há quem os tenha conquistado a pulso e quem os receba de bandeja, o seu gozo é obviamente subjetivo e pessoal.

Todavia, não há quem os não tenha, mesmo que seja a lengalenga de uma ave canora, a leveza refrescante de uma brisa ou a aguarela ensanguentada de um crepúsculo; na certeza de que cada coisa tem a dimensão e a foa anímica que lhe concedermos, independentemente do seu valor intrínseco; e, concomitantemente, as pessoas procuram o que melhor responde às suas necessidades e exigências (exigência nem sempre é necessidade) constituindo, afinal, o naipe dos seus privilégios – longe evidentemente de qualquer aferição ética ou sociológica.

Pois bem, eu considero-me um privilegiado em relação à maioria dos locatários desta cidade, mesmo um grande privilegiado; mas, descansem os senhores do fisco, os políticos encartados ou os autoproclamados niveladores de classes sociais que sempre as nivelam em jeitos e proveitos próprios, que não é nada disso que estão a pensar, pois doutro modo não cairia nunca na parvoíce de o declarar aqui deste jeito ou gritá-lo, sem medo, aos quatro ventos.

E porque não nasci rico, não herdei fortuna, não tive padrinhos ou madrinhas que me guindassem na vida, e muito menos me saiu o euromilhões, o meu privilégio é simples, comum e democrático; e, assim, é um privilégio acessível a todos ou que poderia bem ser de todos, porque não paga impostos, não exige dispêndio de capital, não me dá proventos nem vantagens a que não tenha justo direito.

O meu privilégio reside neste naco de céu e de paisagem que da varanda da casa onde resido se avista e usufrui; e, então, quando se é poeta, não desses que fazem versos a granel ou a computador, espreitam primaveras e andorinhas de papel e chamam à lua bola de queijo da serra, mas dos que ainda cantam os gorjeios icásticos dos pássaros, a virgindade fogosa das vergônteas e das cepas, os eflúvios voláteis das manhãs de maio, o festival fúlvido dos poentes ou os himeneus dos cravos e das rosas as emoções ganham novos espaços, novas dimensões e o privilégio se agiganta, mormente nesta nossa sufocada cidade de cimento e aço, alcatrão e poluição.

Então, aqui desta varanda rasgada a nascente, desenha-se a montanha do Sameiro e da Falperra ensimesmada e verde com o Bom Jesus do Monte em apêndice viçoso e ondulante; e, mais para norte, os contrafortes da serra do Carvalho, cozidos no vale úbero e fecundo de S. Mamede d'Este e as asperezas das Sete Fontes desafiam a solidão das urzes e o frenesim do tempo.

Depois, aqui e além, nos sopés destas alturas, o casario agachado e vário põe na paisagem um tom variegado e doce, entre o carmim e o verde, onde apetece descansar o olhar e serenar a alma; e, a culminar os ímpetos deste pedaço sublime de natureza, desenha-se a linha do horizonte, serenamente recortada pelas sinuosidades da serra do Sameiro e da serra do Carvalho e encimando o extenso vale que já foi celeiro da cidade e se transformou, dia a dia, pela mão do homem, em féretro casario, desvairado e desassossegado, a que chamam arremedos de progresso.

E logo que a noite desce, arrastando consigo a paz e a solidão que se apossam freneticamente do longo vale, mais o meu privilégio se adivinha, agiganta e assume: ele são os responsos dos rafeiros antigos guardadores de rebanhos, de gados e de casas, a voluptuosa melopeia da bicharada vária (ralos, sapos, grilos, rãs e rainetas) cada qual debitando à noite que se apresta a sua partitura como artista da grande orquestra natural, a luz suave e fresca das estrelas iluminando os himeneus dos prados e das hortas e o recolher obrigatório dum bando de pombas que se cansaram de revoltear sobre o casario e os quintais, desde o fresco da manhã, recolhem aos seus aprestos numa cadência ritmada de pelotão armado e treinado; e quanto mais a noite cresce ele é, sobretudo, a certeza de que este meu privilégio não paga impostos, não fere nem embota a sensibilidade dos cidadãos escrupulosos e cumpridores de seus direitos fiscais, nem está proscrito no código dos moralistas.

Mesmo assim vacilo e temo que, um dia mais aziago e despropositado, os vampiros do cimento e do aço, do alcatrão e da poluição; avassalem de vez estes cômoros e estes vales e reduzam o meu privilégio à insignificância natural porque nestas coisas de poetas e rimas o sonho, mesmo não pagando imposto, está sempre sob a mira de certos políticos para quem o lucro voraz e inconsequente está à frente dos direitos de paz, bem-estar e gozo espiritual dos cidadãos.

Então, até de hoje a oito.


Autor: Dinis Salgado
DM

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24 março 2021