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Pós-verdade (4)

1. A verdade é geralmente percebida como o acordo entre o entendimento e a realidade conhecida, isto é, entre as representações e os factos, acordo esse que pode ser alcançado de diversas maneiras, interpretado sob vários ângulos, o que não significa, de modo nenhum, que tudo seja subjectivo, ou relativo. Já Santo Agostinho dizia que por vários caminhos se chega à verdade: "Não saias de ti, mas volta para dentro de ti mesmo, a verdade habita no coração do homem. E se não encontras senão a tua natureza sujeita a mudança, vai além de ti mesmo". A essa teoria da verdade – “a adequação do intelecto com a coisa” –, contrapõe-se, entre várias, a de Heidegger, para quem a verdade é o “desvelamento” do que está oculto, que não está – como o sustêm muitos – nas coisas ou nos enunciados; esta orientação fenomenológica e hermenêutica, segundo a qual a verdade é o desoculto (aquilo que se mostra), deixa subentendido que ela é essencialmente conflituante, pois é na luta que se retira o ente do velamento (encoberto). 2. De modo nenhum “tudo vale”: quando todos se sentem no direito de dizer qualquer coisa, corresponda ou não à realidade, envolta em dados fictícios, sem o respaldo das metodologias de aferição sobre a adequação das asserções aos factos, acresce a agravante do marasmo acrítico de telespectadores e internautas. As redes sociais, com o seu funcionamento anónimo, sem estatutos e órgãos responsáveis, parecem grupos secretos que propalam qualquer coisa sem respeito pelos direitos dos indivíduos. Hoje, como sabemos, organizações à distância baralham e falseiam os dados a fim de induzirem eleitores a votar em posições irracionais (recordem-se as votações no referendo sobre o Brexit, no Reino Unido, e a eleição presidencial de Trump). Os cidadãos da União Europeia deveriam estar atentos a tais manobras, que vêm de perto e de longe (principalmente de Leste), pois são eles os alvos principais, em cada acto eleitoral; são tais malabarismos que subsumem a pós-verdade. Se – como dissemos no artigo anterior – o mundo digital amplifica a tensão entre política e verdade, nada impediria também que se amplificasse a função de sindicância ao mundo digital, em tempos em que essa vigilância é mais fácil: não é possível postergar os fact checks (verificação de factos), no exercício persistente da função de escrutínio aos diferentes poderes – político, económico, judicial. O tempo que vivemos não é, pois, tanto o da pós-verdade, como o do abandono da contraprova, da sindicância, que hoje quase não há, e que deveria concitar a maior atenção e reflexão. 3. Disparate é aproximar a metodologia científica – que, refutando “verdades admitidas”, está sempre em busca da verdade, – e a pós-verdade. Crítica e autocrítica são o ambiente normal da genuína atitude científica: reconhecer erros, rever conclusões, pô-las à prova pública. Sendo o conhecimento científico falível e as suas conclusões sempre provisórias, a verdade científica só se dá nessa “errância contínua” – a verdade de hoje é erro de amanhã –, que também mostra a imensidão do que não sabemos. Aprender com os próprios erros – posição que induz humildade e confiança – é o contrário do comum hoje em dia (em especial na política e no marketing), de mentiras e fingimentos com roupagem raciocinativa. Se a pesquisa científica não produz crenças estáveis, mas é uma actividade que continuamente vai além de si mesma, sempre em busca de novas verdades, o cientista sabe que essa verdade ideal é inatingível, mas não abandona a meta. Na era da pós-verdade é a meta que é abandonada. 4. Sempre que reagirmos politicamente com emoções (por vezes as mais primitivas) a estratégias de manipulação – cheias de nacionalismo ou de populismo – para despertar emoções, estaremos à mercê de interesses inconfessáveis que desconhecemos. Vivemos num tempo de graves e globais ameaças à democracia. Nos nossos dias, é um imperativo cívico resistir à chantagem irracionalista, muito útil aos tiranos e extremistas, a organizações anónimas que manobram não se sabe donde, a imperialismos despóticos que ostentam, contra a democracia, as vestes da democracia. Porventura, não foi mera coincidência terem sido publicados no mesmo ano (2004) os livros Pós-Democracia, de Colin Crouch, e A Era da Pós-Verdade, de Ralph Keyes: quando se menospreza a conformidade com o real, como o esteio da verdade, ou quando não interessa, numa democracia teatralizada, tanto o que se diz, como o que se diz – qual espectáculo encenado por forças que resistem ao desvelamento (e invisíveis à decisão colectiva) –, hipoteca-se o futuro. Numa época em que se presta pouca atenção aos direitos políticos que ainda temos (entre os quais votar, “arma pacífica” em política), aos quais somos indiferentes, ou de que até abdicamos, o mais certo é perdermo-nos como cidadãos e acharmo-nos como súbditos. De certo modo, o futuro que reservarmos à verdade é o futuro que reservamos à democracia. O autor não escreve segundo o denominado acordo ortográfico.
Autor: Acílio Estanqueiro Rocha
DM

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27 março 2018