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Pós-Verdade (3)

1. A ambiência do pós-modernismo – como vimos no último artigo – é mais de simulação que de realismo, não nos informando sobre o mundo mas refazendo-o constantemente – “hiper-realizando-o” –, transformando-o em espectáculo; exemplo disso é a televisão, o mundo digital, que, pelas infindas possibilidades de informatização, podem simular espaços espectaculares e hiper-reais.

O pós-modernismo é ecléctico, mistura várias tendências e estilos sob o mesmo nome; é mutável, com novas incidências quando se está na tecnociência, nas artes plásticas, na sociedade ou na política; em suma, flutua no indecidível.

Na literatura, por exemplo, o pós-modernismo amplifica a inventiva, modelando a nossa sensibilidade por imagens sedutoras, tornando-a intertextual, destruindo a forma romance, banindo o enredo, o assunto e a personagem, por um “novo romance”, o pastiche, a paródia. Tudo se passa como se a “pós-verdade” fosse a verdade típica dos tempos “pós-modernos”.

2. Em A Era do Vazio, Gilles Lipovetsky chama a atenção para a fragmentação da sociedade e dos seus costumes, para o excesso do consumo, a exuberância do hedonismo, o predomínio do individualismo que fazem emergir um modo “inédito” de vivência. Zigmund Bauman, outro filósofo contemporâneo, não utiliza o termo pós-modernidade, mas o de “modernidade líquida”, já que os preceitos sólidos e sedimentados, que a modernidade nos legou, "derreteram-se" (Bauman), num tempo em que "nos liquidificamos", metamorfoseando mentiras em “verdades interesseiras” – qual triunfo do espelho que só vê o culto da própria imagem.

Segundo Gilles Lipovetsky, o sujeito da pós-modernidade – ou da hiper-modernidade, como prefere – guiado pela lógica hedonista, pela "deserção generalizada dos valores e finalidades sociais", tornou-se um indivíduo “narcisista”, voltado para si mesmo em busca de satisfação, numa vivência apenas do presente, abstraindo do passado e não olhando o futuro, perdendo as lições do sentido histórico (como ocorreu na eleição de Trump, ou no referendo sobre o Brexit).

Com o enfraquecimento da esfera pública, e consequentemente da política, são os problemas da vida pessoal que são agigantados: ao “homo politicus” parece suceder o “homo psicologicus”, ávido de psicanálise, ansioso por identidade e bem-estar, mas marcado também pela solidão e por um solipsismo devastador.

3. A crise que invade o sujeito “pós-moderno” não é, segundo Lipovetsky, nem a do sujeito pessimista de Nietzsche, nem a do trabalhador oprimido de Marx, mas parece-se mais "com o telespectador tentando “assistir”, uns após outros, aos programas nocturnos, ou com o consumidor enchendo o seu carrinho (...)". E acrescenta: "A alienação analisada por Marx, resultante da mecanização do trabalho, deu lugar a uma apatia induzida pelo campo vertiginoso das possibilidades e o self–service generalizado".

Ora, neste dealbar do século XXI, falar e agir na “esfera pública” não pode ser apenas questão de gosto, ou de livre arbítrio privado; conforme advertia Hannah Arendt, a liberdade republicana nasce na interacção entre cidadãos, regida por regras que transcendem o âmbito da opinião privada de cada um: a liberdade não está apenas no coração do homem, está na interacção de vários cidadãos num chão comum.

4. Fez fortuna também o conceito de “jogos de verdade” de Michel Foucault, para quem não há propriamente verdade, porque tudo está historicizado: a verdade depende de relações e coordenadas que configuram a realidade e suas condições de existência. Os jogos de verdade não resultam da descoberta da verdade, mas de contingências do saber, que fazem emergir, nas várias circunstâncias, o que pode ser dito como verdade.

Daí não pode concluir-se, como alguns alegam, que Foucault seja "o pai fundador da era da pós-verdade"; longe disso: foi ele mesmo que disse (num curso no “Collège de France”, Paris), em 1984: "Nada é mais inconsistente que um regime político indiferente à verdade; mas nada é mais perigoso que um sistema político que pretende prescrever a verdade". Deste modo, Foucault critica quer a indiferença em relação à verdade quer a imposição de uma verdade por regimes políticos. Ora, a pós-verdade assenta na indiferença a estas duas urgentes e graves questões.

5. Nem Nietzsche, Derrida, Deleuze, Lipovetsky, Bauman ou Foucault – nenhum destes filósofos – aceitariam que uma mentira suportasse as fragilidades do “sujeito pós-moderno”, que estão na base de nacionalismos fáceis, de populismos fanáticos, de neofascismos das massas ululantes. A verdade é uma nebulosa mas é via que deve prosseguir-se sem fim, num afã audacioso, num labor sem desfalecimentos, ou, na expressão de Foucault, na "coragem da verdade" (título do seu último curso no “Collège de France”).

Como escreveu George Orwell – autor do imorredouro livro Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (escrito em 1949) –, "num tempo de engano universal, dizer a verdade é um acto revolucionário".

O autor não escreve segundo o denominado acordo ortográfico.


Autor: Acílio Estanqueiro Rocha
DM

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24 março 2018