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Pós-verdade (1)

1. O termo pós-verdade entrou já na conversação corrente, tendo sido escolhido como palavra do ano em 2016, pelos dicionários britânicos Oxford (desde 2004, escolhem a palavra que melhor sintetiza as posições predominantes); ainda segundo a definição dos dicionários Oxford, pós-verdade (“post-truth”) refere-se a "circunstâncias em que os factos objectivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais", pretendendo-se com tal designação descrever uma situação em que são as emoções e as opiniões que sobrelevam, e não a realidade dos factos.

Como se sabe, o seu uso foi inflacionado em 2016, aquando do referendo “Brexit” (sobre a permanência ou não do Reino Unido na União Europeia) e da eleição presidencial de Donald Trump nos Estados Unidos; mas, já antes, cita-se a emergência da “era da pós-verdade” com a declaração de Colin Powel (general e secretário de Estado norte-americano), em 5 de Fevereiro de 2003, na ONU, quando se referiu às “provas” (“fabricadas”, soube-se depois) da produção de armas de destruição massiva pelo Iraque. Neste contexto, a noção de pós-verdade apoia-se na ideia segundo a qual é mais fácil modelar e inflectir a opinião pública, jogando com as emoções e a demagogia, que apoiando-se em factos comprovados.

2. Assim, pós-verdade alude a uma estratégia de desvalorização dos factos, em favor de interesses pessoais, pelo que a sua outra face são as fake news (notícias falsas), como foram as estatísticas falsas divulgadas durante a campanha do “Brexit” sobre os elevados custos da continuidade na União Europeia, ou os rumores insidiosamente lançados acerca da origem muçulmana do ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Se, por iniciativa de Trump, e de sua equipa, foram propaladas tantas falsidades, ora sobre a candidata presidencial Hillary, ora sobre a situação económica da maior potencia mundial, ou da política internacional, nessas artimanhas, ele esteve bem acompanhado pelos britânicos Boris Johnson (conhecido pela cabeleira loura desgrenhada) e por Nigel Farage, deputado europeu e líder do UKIP (partido eurocéptico e anti-imigração britânico), que não ficaram atrás em copiosos pacotes de mentiras, que originaram uma das maiores alterações dos últimos tempos – a saída do Reino Unido da União Europeia; integrado nesta desde 1973, esqueceu-se um primeiro referendo (Junho 1975), com um resultado largamente favorável (67,2% de votos pela permanência).

Se esta onda de “banalização da mentira” impregnou a política, ela é imprevisível quanto a consequências funestas. Michael Wolff, no livro agora publicado, “Fire and Fury: inside the Trump White House” (“Fogo e Fúria: dentro da Casa Branca de Trump”), afirma que o actual Presidente é a pessoa menos credível do mundo, que nunca pensou vir a ser presidente (a campanha faria parte de uma sua estratégia comercial); e na noite eleitoral, ao saber da vitória, "Trump parecia que tinha visto um fantasma e Melania estava em lágrimas - não de alegria"; se assim for, é de assustar um presidente deste jaez a dirigir a maior potência militar! Quanto ao “Brexit”, nem sequer estamos em condições de mensurar as suas consequências, seja no próprio Reino Unido ou na Europa, tão desconhecida é a realidade!

3. A verdade é que muita gente seguiu euforicamente tais dislates sem se questionar – como ocorre com tanta frequência noutras situações. Acresce que tais afirmações – que proliferam sobretudo no terreno da política e do marketing – patenteiam a sua falsidade, que salta à vista mas não se questiona; a atitude simplória é, “se não são verdadeiras, deveriam sê-lo”. José Saramago clamava que "o tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira todos os dias".

Ora, já Aristóteles, na antiguidade grega, dizia que "a dúvida é o princípio da sabedoria", e Bertolt Brecht, no século XX, que, "de todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida". Efectivamente, adere-se a tais falsidades como se a arena política fosse um cenário teatral: “sigo o actor que diz o que não posso dizer, mas quero que seja”, assim alimentando ilusoriamente algum poder – terreno fértil dos que fomentam a xenofobia e o populismo. Há quatro séculos, já o Padre António Vieira advertia: "Pior é uma verdade diminuída que uma mentira muito declarada".

4. A “pós-verdade” parece inserir-se na ambiência do pós-modernismo, corrente do final do século XX, com o francês Jean-François Lyotard, autor d’A Condição Pós-Moderna (1979), para quem "não há factos, apenas interpretações"; ou o neopragmatismo do estadunidense Richard Rorty, para quem qualquer declaração é igualmente válida, dependendo de seu uso e contexto. Porventura, não será bem assim. O filósofo alemão Jürgen Habermas, crítico de Lyotard e de Rorty, afirma que aí se joga o valor e o futuro da própria democracia – questão a que voltaremos.

O autor não escreve segundo o denominado acordo ortográfico.


Autor: Acílio Estanqueiro Rocha
DM

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27 fevereiro 2018