twitter

Porém, a Leste nada de novo, infelizmente…

Os filmes constituem uma extraordinária forma de contar histórias. Misturam imagem, som, emoções, movimento e performances artísticas, entre outros. Quando para além disso se conta uma boa história, que merece ser vista, através de uma boa realização, assistir a um filme pode ser uma experiência para a vida.

Sim, adoro cinema e tenho tido o privilégio de assistir a muito bons filmes. Seria fastidioso, para não dizer impossível, fazer aqui uma lista dos bons, excelentes filmes que tenho tido o privilégio de ver. Até porque gosto de praticamente todos os géneros: da comédia ao romance; do policial à ficção científica; do drama ao musical, para mim o único critério é a qualidade.

Infelizmente, por várias razões, na minha opinião nos últimos anos não faltam filmes nas salas de cinema, mas faltam bons filmes. Por razões que não interessa agora aqui analisar, é difícil assistir a uma boa “fita”, lembram-se da expressão? Muito terror, muitos super-heróis, muita ação, mas muito poucos bons filmes.

Os filmes de guerra têm para mim uma especial atração. Não porque goste de guerras, mas porque permitem perceber, se forem bem feitos, o drama, o sofrimento e a inutilidade que as guerras representam quase sempre.

Sempre coloquei até hoje, no topo da minha lista de filmes de guerra “Platoon-Os bravos do pelotão”, filme norte-americano de 1986, do realizador Oliver Stone, na perspetiva dos soldados americanos que eram enviados para a selva do Vietnam, para combater não se sabe bem porquê. Ou melhor uns julgavam saber, outros não.

Agora, ao lado desse, inquestionavelmente, junta-se o muito recente (disponível desde 28 de outubro) lançamento da Netflix, “A Oeste nada de novo”, uma adaptação da obra com o mesmo nome do escritor alemão Erich Maria Remarque, sobre a Primeira Guerra Mundial, mais concretamente sobre a guerra das trincheiras.

Realizado por Edward Berger, este filme de 2h30 mostra todos os horrores da guerra. Todos mesmo, os físicos e os psicológicos.

Quando a euforia de jovens alemães que partem como soldados para a guerra, imbuídos de uma romântica e patética ideia de heroísmo, patriotismo e conquista, crentes que em poucas semanas estariam a desfilar em Paris, se transforma no terror de uma guerra de trincheiras, em que avançar e conquistar umas dezenas de metros no terreno, implicava necessariamente milhares de mortes estúpidas. Como refere o historiador John Guilmartin Jr. “por mais de dois anos ambos os lados em combate avançaram menos de 15 quilómetros tanto numa como noutra direção”. Contudo, só essa guerra de trincheiras representou mais de 3 milhões dos 17 milhões de mortos na Primeira Grande Guerra, para além de muitos outros, feridos, estropiados e traumatizados para a vida.

O filme da Netflix ajuda a perceber o horror dessa guerra, de qualquer guerra aliás, melhor que qualquer outra via. A expressão “carne para canhão” é aqui percebida na sua plenitude.

Agora, alguém faz o favor de mostrar este filme aos senhores da guerra que fazem da Ucrânia também um pesadelo para aqueles que nela combatem e vivem, para ver se se compadecem e param uma guerra que apenas vai contribuir para somar mais mortos e mais infelicidade a milhares de outras guerras do passado?


Autor: Fernando Viana
DM

DM

5 novembro 2022