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Pôr o avião à frente dos bois

  1. Um aeroporto no Montijo, medida eleitoral?).Por mim, tenho fortes dúvidas disso. O PM António Costa apareceu, no início de Janeiro, de forma inesperada, a dizer que já não se pode esperar mais; que é agora ou nunca; que (imagine-se…) não será o povo a pagar, será a ANA e os seus accionistas, os “filantropos” do Vinci; que não há localizações alternativas (próximas, como Alcochete-Samora Correia, Alverca, Sintra, Ota) ou menos próximas (Monte Real em Leiria, Beja); que uma ampliação da Portela não chega. Porém, todas estas suas afirmações são discutíveis. Dizem até, alguns, que se trata de propaganda eleitoralista, que dificilmente será cumprida (aliás, as obras durariam 4 ou 5 anos e quanto a despesas, quem vier atrás que feche a porta…). Eleitoralismo porém, se pensarmos bem, é que não será por certo. Senão vejamos.

  2. Os lisboetas e os montijenses desejam mais barulho e tráfego aéreo?). A resposta é “não”; e não serão precisas grandes sondagens de opinião. Um novo aeroporto no Montijo (estudado para, salvo erro, 46 movimentações por cada hora) irá, pensa-se, duplicar o tráfego aéreo em toda a região em cima e à volta da capital. A qual, já com a intensidade que tem hoje, se torna difícil de suportar pelo elevado nível de ruído, sobretudo em zonas que ficam perto dos diversos corredores aéreos. Depois, há o factor “segurança”: quanto mais aterragens e deslocagens houver, maior será o risco de acidentes, numa área densamente urbanizada como aquela.

  3. O excesso de turistas descaracteriza certas zonas das cidades).Não falo do Algarve, onde a companhia desses europeus do norte já faz hoje até, a “cor local” da maioria das suas belas praias. Nem falo de Braga ou de Coimbra. Refiro-me sobretudo, a Lisboa e ao Porto, onde desde há 2 ou 3 anos a “invasão turística” se faz sentir em não poucos bairros. É certo que deixam cá ficar imenso dinheiro (só assim o dr. Costa se tem aliás aguentado…). Mas as suas ofertas de compra, acima do preço de mercado, contribuem para o aumento das rendas prediais e substituição de populações tradicionais, as quais têm de ir morar para a periferia. Com a consequente e irónica descaracterização dos bairros antigos que atraiam tantos desses turistas (o caso de Alfama é típico). A ideia é que o turismo (e a imigração) que há, já chegam. O aumento indefinido deles não é desejado. Daí que o aeroporto não seja bem vindo. E sendo Lisboa uma megalópole de mais de 1 milhão de votantes, um novo aeroporto é pois perda de votos, não é ganho.

  4. Depois, o Estuário do Tejo é uma zona protegida de interesse mundial).Não há qualquer exagero nisto. Na imensa migração das centenas de espécies de aves que fazem o vai-vem anual entre África e a Eurásia, a rota da Espanha Ocidental (e Portugal) passa pelo estreito de Gibraltar; segue pelas marismas do baixo Guadalquivir; e inflete, para boa parte delas (sobretudo as aquáticas e limícolas) para os estuários do Sado e sobretudo do Tejo; e depois para norte, até a ria de Ovar-Aveiro. Apesar da 1.ª “agressão”, que foi a longa ponte Vasco da Gama, a zona protegida do Estuário do Tejo permanece ainda um santuário para espécies tão raras como os flamingos, cegonhas, garças-reais, águias e tartaranhões, noitibós, corujas do nabal, falcões elânios, patos diversos; além de muitas outras, nomeadamente de pequenos passeriformes.

  5. Motores de avião a “sugar” flamingos e gansos).Seria impensável expulsar as aves, às vezes de grande porte (garças, flamingos, cegonhas, águias, patos) de todo aquele vasto entorno (a zona protegida tem 43 mil ha.). Daí que a segurança dos voos fique sempre posta em causa, devido ao perigo de os motores a jacto sugarem as grandes aves, avariarem e os aviões se despenharem sobre zonas muito habitadas.

  6. A “recaída socratista” de contratar uma obra antes do estudo do impacto ambiental).Aconteceu, p. ex., na construção de barragens em rios secos mas com belíssimos e longos desfiladeiros, como foi o caso do Sabor e do Tua. Acontece agora, de forma caricata, em mais um malabarismo “à Costa”, com o “facto consumado” de um novo aeroporto em pleno estuário do Tejo. Ainda não há estudo de impacto, mas já se fala “do” aeroporto do Montijo, como no socratismo a imprensa já dizia “a barragem do Sabor, do Tua”; antes de aparecerem estudos que as aprovassem. E entretanto, havia sempre alguém que “dava um jeito nos estudos”. E à espera dos estudos havia sempre um atemorizador “construam-me, p. (palavrão)”, toscamente escrito no local da futura obra. Enfim, eram os tempos do “porreiro, pá”…

  7. Estão mexendo no meu bolso”…). Apesar de o investidor ser a Vinci (que já gere a Portela e a ponte Vasco da Gama), sabe-se contudo que “não há almoços grátis”. “lá vai barão” (i. e., notas, despesas), como dizia Jô Soares no humorístico “Planeta dos Homens”, nos anos 80 (o qual glosava a célebre série americana “Planeta dos Macacos”). Onde curiosamente havia um inteligente macaco-perguntador (de nome, Sócrates!) que iniciava as questões com um educado “disculpi a iguinorância do macaco, mas…”.


Autor: Eduardo Tomás Alves
DM

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22 janeiro 2019