A indefinição é um cancro na Democracia que só pode ser combatido quando assumimos com verticalidade os seus pontos fracos e melhoramos os nossos pontos fortes.
Tal como a indefinição, a incerteza exige de cada um de nós a capacidade de mobilização em torno dos seus fundamentos e atuar de forma preditiva, impedindo o seu enfraquecimento de forma irreversível.
Não está em causa a incapacidade do poder fazer, mas sim a incapacidade de aceitar a Mudança, mesmo que em prejuízo de causa própria. Não nos podemos esquecer que há um bem maior superior à Indiferença: a Liberdade coletiva.
É, por isso, fundamental que, nesta fase de debate pós-eleitoral, haja o discernimento político necessário, em sede da Assembleia da República, para abrir sem qualquer condicionamento, a alteração à Lei Eleitoral. A Democracia participativa e a verdade eleitoral agradecem.
Daí resulta, igualmente, a necessidade de abrir o debate às cidadãs e aos cidadãos de forma que todas e todos possam pronunciar-se sobre a nossa democracia representativa
O debate deve ser relevado pela sua capacidade de despoletar o melhor que cada uma e cada um têm para contribuir para o exercício da cidadania. No entanto, a fisionomia da discussão atual tem esbarrado em entropias que, manifestamente, deviam fazer parte do passado. A sociedade portuguesa debate-se com um dilema que merece ser debatido e de forma aprofundada: queremos reforçar os mecanismos da Democracia, ou viramos as costas à oportunidade e mantemos um status quo que definha os alicerces das Liberdades que herdamos? – A minha resposta é simples: estou do lado do aprofundamento da Democracia, de novos modelos de participação e inclusão na decisão política sobre o futuro comum. Estou do lado dos que desejam transparência e verdade eleitoral. Permitam-me, a propósito, que afirme com toda a franqueza: o que se está a passar com o apuramento dos resultados eleitorais na Europa e fora da Europa, é um tiro no pé, não só na decência que o ato exige, mas, igualmente, na credibilidade e na afetividade que a participação cívica em atos eleitorais merece. Este apelo ao cumprimento da Constituição e à revisão dos mecanismos de representatividade, que temos vindo a fazer, torna-se, assim, uma exigência, a par de uma profunda alteração dos mecanismos de controle da consolidação e aprofundamento da Democracia. Esta exige que em Portugal seja criado um mecanismo proativo com capacidade de intervenção e determinação suficientes para fazer avançar o debate a decisão política em questões fundamentais para o nosso tempo. Não imagino o que estão a sentir atualmente os mais de cem mil portugueses que viram anulado o seu esforço no cumprimento de um dever cívico, mas apelo a que se juntem a esta necessidade de renovação e aprofundamento da Democracia. Da mesma forma que se mobilizaram, superando todas as expectativas, tal como em Portugal, é expectável que mantenham viva a chama da participação cívica nas comunidades onde trabalham e vivem. Por cá, tudo faremos para fortalecer a Democracia em prol do país. Esta mobilização, tal como já o anunciamos, será permanente e não tem prazo para concluir a sua missão e visão do que deve ser o reforço dos mecanismos para o acesso à literacia política. Ao conseguirmos como coletivo baixar significativamente os números da abstenção, tal como os brancos e nulos, demonstramos que é possível quebrar tabus e muros e que o caminho faz-se caminhando, haja vontade para resistir à tentação da Indiferença e ao imobilismo político que tacitamente contamina os alicerces da Democracia e a vontade de Mudança.
Autor: Paulo Sousa