“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. - Fernando Pessoas, poeta, filósofo, dramaturgo (1888-1935)
Ponto um - Tenho um prazer enorme em escrever sobre a minha cidade: a cidade de Braga. Cidade abrigada e construída nas fraldas baixas da Falperra e do monte do Sameiro, a sul. Cidade solarenga, serena e que tem uma paisagem deslumbrante do Vale do Cávado, a norte. Cidade com História e com histórias. Uma cidade que marcou um tempo no noroeste peninsular. Com um passado nobre e com figuras de enorme gabarito.
A cidade merece, portanto, que nos incomodemos com ela, com as suas gentes e com o seu futuro. A cidade merece que estejamos sempre alerta, para que os novos “construtores” não cometam, arbitrariamente, ainda mais disparates nos seus domínios e não violem mais os pergaminhos da sua história.
Ponto dois - É preciso colocar a criatividade, o engenho e a determinação em primeiro lugar. É preciso que os mandantes da cidade sejam visionários nos objectivos e sensatos na acção. Agora e no futuro. É preciso, enfim, que sejam corajosos, sérios e firmes nas decisões. Decisões sábias, ponderadas e verdadeiramente exequíveis. O futuro desta cidade e o bem-estar das suas gentes dependem muito, muitíssimo, dessa capacidade de intervenção e de arrojo. E dessa visão. Chega de cometer disparates como aqueles que se cometeram ainda há bem tempo com a decisão errada de se assumir os custos dos campos de futebol sintéticos e do estádio da Pedreira. Convém ter sempre presente que a alienação do subsolo para se construir os parques de estacionamento subterrâneos e o arranjo medonho do Campo da Vinha foram outros erros crassos de uma gestão fechada e sectária. Para não falar do cimento e do tijolo a mais e da falta de planificação urbanística, inteligente e equilibrada que se fizeram sentir num tempo incaracterístico e “dominado” muito por interesses que pouco ou nada tiveram a ver com o bem público. Foram tomadas decisões, decisões estas irreversíveis, que desfiguraram a cidade e destruíram as finanças do município. E isto teve, tem e terá os seus custos.
Ponto três - A onda turística também se faz sentir em Braga. Ainda de tamanho sofrível, em relação ao Porto ou a Lisboa, mas com tendência segura para um aumento colossal. Braga merece ser visitada e revisitada por todos os que gostam de qualidade, de bem-estar, de história e de monumentalidade.
A qualificação da jóia bracarense do “Bom Jesus do Monte” como Património Mundial pela UNESCO veio despertar todo o mundo para a beleza ímpar deste cantinho e para mestria da sua arquitectura e vai dar o empurrão necessário para a importância deste lugar mágico nos roteiros turísticos internacionais. O “Bom Jesus”, por si só, tem potencial suficiente para atrair muitos e muitos visitantes. Mas seria pertinente e ajustável que a cidade se preparasse também para oferecer a quem a visita um bom caderno de encargos referente à mobilidade, à segurança, ao asseio, ao respeito pela sua história e pelo seu edificado.
Ponto quatro - Há muito que fazer na cidade para a tornar mais encantadora e mais apetecível.
Quem visita a cidade procura essencialmente o seu casco urbano com a sua história e a sua monumentalidade. Embrenha-se no seu arruado medieval e nas suas praças. Aprecia o seu barroco e a alma das suas gentes. Sente a vitalidade do seu comércio e delicia-se com a sua gastronomia. Contudo, Braga ainda pode oferecer mais. Pode ser um ponto de encontro, pela sua situação geográfica, de visitas ao Gerês, (santuário de São Bento da Porta Aberta), às praias, à Galiza, ao Alto Minho. Pode ser um centro polarizador no roteiro Beneditino com visitas aos mosteiros de Tibães, de Singeverga, de Cabeceiras de Basto, de Rendufe e de Bouro. Braga tem potencial para ser, de facto, um bom local até para as pessoas se fixarem e viverem.
É preciso fazer mais para tornar esta cidade singular e extremamente apelativa. No próximo artigo, darei sugestões, algumas delas já referidas noutros trabalhos anteriores. Mas, é conveniente voltar à carga para acordar os mandantes para estas realidades.
O valor (desenvolvimento sustentado) de uma cidade está muito ligado à qualidade humana dos seus lideres, para que estes possam proporcionar momentos inesquecíveis às suas gentes e fazer coisas inesquecíveis que entrarão, por direito próprio, nas páginas da História local.
Autor: Armindo Oliveira