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Ponto por ponto

É com algum incómodo que escrevo este texto. Mas tenho que o fazer pela dedicação e esforço que despendi para alterar o paradigma político, social e cultural de Merelim São Pedro e por consideração a todos os merelinenses que me acarinharam e partilharam comigo, dando o seu melhor, uma experiência autárquica inesquecível e enriquecedora sob o ponto de vista humano. Período autárquico profundamente vivido, em que se delinearam projectos arrojados que fizeram movimentar uma freguesia que estava estagnada há demasiado tempo e coarctada por divisões de diversa índole. Quem viu Merelim S.Pedro entre 2009 e 2013 e quem vê, agora, em 2019 apercebe-se e percebe que existe uma diferença abismal. Incomparável mesmo. A coligação política vencedora é a mesma. Diferente são as pessoas, o seu entusiasmo, as suas dinâmicas e a sua capacidade mobilizadora. Havia em 2009 uma visão e uma estratégia bem definida para o presente e para o futuro. Havia um querer e uma entrega desinteressada. Havia uma disponibilidade autêntica e bem sentida. Havia, de facto, dedicação à comunidade.

Ponto um - Mudanças claras na participação cívica- O período de 2009 a 2013 quebrou um ciclo longo de alheamento pelas coisas da freguesia, de apatia cívica em relação às suas instituições e de um vazio cultural confrangedor. Antes, nada havia na freguesia além do Merelinense Futebol Clube, do agrupamento de Escuteiros e dos serviços da paróquia.

Desmobilizados os grandes mobilizadores da freguesia, hoje caminha-se seguramente para os tempos do vazio cultural e para o alheamento. Tem-se feito o retorno em direcção ao passado, passo a passo. A falta de iniciativa é brutal. A falta de envolvimento é notória. As pessoas não querem nada e não participam em nada. Ouve-se aqui e ali desabafos saudosos dos tempos das caminhadas a Fátima e a Santiago de Compostela. Caminhadas a São Bento da Porta Aberta, à Penha e ao Sameiro. Caminhadas com alegria e realizadas num ambiente de franco convívio. Ouve-se aqui e ali palavras mortiças que querem recordar o “Almoço e a Festa de Natal dos velhotes” que decorriam com alma, impregnados de bem-estar e de muita partilha. O dia da Comunidade cinge-se hoje a pouco mais do que a celebração da missa campal. A caminhada “24 horas sem fumo” no parque de Gerizes já lá foi. Os Maios idem. O jornal, órgão de comunicação social da freguesia, desapareceu das bancas. Os saudosos passeios de idosos são hoje uma actividade vazia, insossa e sem proveito algum. Deixou de haver criatividade em Merelim São Pedro. Deixou de haver envolvimento.

Ponto dois - Tempos de mudança - Quem está à frente dos destinos da freguesia não tem noção do trabalho que deu para mudar o rumo da apatia e do vazio cultural que se vivia antes de 2009. Não tem noção nenhuma, porque não viveram esses tempos de mudança e de combate político. Estavam longe, bem longe de tudo. Por isso, é fácil deixar “morrer” todo esse mapa de iniciativas e de actividades que orientou uma nova dinâmica, uma dinâmica vencedora, e uma nova abertura social e cultural. Houve mudança efectiva na freguesia e bem sentida por todos. Sentia-se nas pessoas um bem-estar e uma boa ansiedade por novidades. Na freguesia havia novidades constantemente. Novidades que eram bem recebidas e melhor abraçadas.

Merelim São Pedro está a dar um enorme passo atrás e é praticamente irrecuperável o tempo da participação, do entusiasmo e da mobilização das pessoas pelas coisas da sua terra. Merelim São Pedro não merecia voltar atrás. Voltar a um passado de nada ou de coisa nenhuma.

Ponto três - Que futuro cultural para Merelim São Pedro - A reforma administrativa de “Relvas” uniu as freguesias de Merelim São Pedro e Frossos. Uma união claramente artificial. Estas duas freguesias, contíguas no espaço, sempre foram distantes nas ligações de ordem afectiva, religiosa, desportiva e educativa. Nada as unia. Foi uma união incompreensível, só possível por arranjos políticos. A liderança também não ajuda. E os resultados são visíveis: indiferença das pessoas no que concerne à participação e ao apego pelas coisas da terra.

As instituições locais, de modo geral, vivem à custa da carolice e da boa-vontade de algumas pessoas. Só de algumas pessoas, que dedicam muito do seu tempo livre, dos seus saberes e das suas energias às causas das suas comunidades. Muitas vezes e como paga pelo trabalho desinteressado desenvolvido em prol dos outros recebem doses avolumadas de ingratidão que fazem desmobilizar qualquer um. É isso mesmo que faz estagnar as águas em Merelim São Pedro. Pode ser que apareça alguém, de novo com capacidade suficiente, para mobilizar os merelinenses e preencher os buracos vazios da cultura e do alheamento. Há que acreditar.


Autor: Armindo Oliveira
DM

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1 setembro 2019