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Ponto por ponto

Ponto um - Foi anunciado com muito desencanto e incompreensão, parece-me, a possibilidade da CMBraga proceder à realização de um referendo para colocar no mercado a famosa “obra d’arte” do Estádio da Pedreira. Decisão, no meu ponto de vista, sensata, inadiável, mas, claramente, tardia.

O disparate da construção deste monstro de betão foi cometido a coberto da vaidade, da arrogância e da estupidez de um poder autárquico irresponsável que não soube acautelar os verdadeiros interesses dos bracarenses. Agora, chegou-se a uma situação de inteira ruptura financeira com as contas da edilidade que sofrerem danos irreparáveis provocados pela irresponsabilidade e pela impunidade. Contas que estão, também e de momento, a ser bloqueadas por causa de uma condenação judicial que implica o pagamento da módica quantia de 4 milhões de euros a uma empresa de construção civil por trabalhos a mais. Outros casos referentes a este dossier existem em tribunal, envolvendo mais milhões de euros, que, por certo, terão idêntico desfecho. Ou seja, com a condenação previsível da Câmara Municipal de Braga.

Ponto dois - Foi preciso que as contas fossem congeladas para alertar a CMBraga para o grande e verdadeiro problema que tem, efectivamente, nas mãos. Ricardo Rio, talvez por falta de coragem, de visão estratégica, por um tacticismo incompreensível ou por querer empurrar o imbróglio para outros, como fizeram a ele, não deu a importância necessária e devida ao caso. Pensava que a políticas da política e as maiorias camarárias, que tem tido, iriam sufragar tanto disparate. Pensava que passaria incólume por esta tempestade de milhões e por este rosário de incompetências, legal socialista.

O Estádio da Pedreira representa mesmo um problema bicudo para a cidade e para o concelho. Por isso, precisa de ser tratado com muito cuidado, rigor e inteligência. O presidente da Câmara deveria saber que o problema não se resolve com referendos ou com outras consultas públicas. Seria bom que isso assim fosse: rápido, limpinho e só com uma cruz num papel. Que maravilha!

O problema emaranhado da Pedreira resolve-se com calma, com uma boa análise da situação jurídica e económica, mas, fundamentalmente, imputando as responsabilidades e as culpas devidas a quem as têm. A gestão socialista do passado recente tem que ser chamada à pedra e é preciso fazê-la assumir o ónus financeiro e social que tem recaído sobre a edilidade e recairá, mais tarde, sobre os munícipes por muitos bons anos em forma de derramas, de taxas e de taxinhas.

Ponto três - Ricardo Rio tem que perder menos tempo com as actividades de diversão e de propaganda e dedicar-se com outro empenho e com outra clarividência ao que é realmente importante para a cidade e para o concelho. E, neste momento, as preocupações não se situam somente no campo de se fazer ou não se fazer um referendo, que não passa de uma escapatória mais ou menos extemporânea e saloia de contornar o assunto, querendo azedar o problema no caldo morno do populismo. As preocupações que existem de facto são de natureza financeira e de imagem. De coragem e de decisões equilibradas. De uma postura nobre que se exige ou de colocar lamentos e pieguices nas mãos de um hipotético referendo que não irá contribuir para nada. (A venda da Fábrica Confiança não gerou referendo, nem coisa semelhante).

Ponto quatro - Outro imbróglio que promete agitar as finanças locais, a curto ou a médio prazo, prende-se com a remunicipalização do estacionamento à superfície, conflito que opõe a ESSE à Câmara Municipal. E, quando o problema estourar, o que vai acontecer, não se avance, de novo, com a ideia peregrina de se fazer outro referendo. As coisas tratam-se, em democracia, com diálogo e negociação. Com uma postura adequada e sentido de responsabilidade. Com ponderação e sem atitudes revanchistas. E o Poder Local tem que saber que, nestes processos de litígio entre as partes, se deve comportar como um parceiro natural e como uma pessoa jurídica de bem e não como um senhor de mando absoluto e considerar-se como o único defensor do bem público e das instituições.

Os tempos são outros. Agora, é o tempo da cidadania e da liberdade de opinião. Agora, é tempo de se dizer não, quando é não e de se dizer sim, quando é sim. Sem medos e sem retaliações. Só assim se constrói um país a sério e se forma um povo com pensamento critico e com ideias.

O voto em urna só confere aos eleitos mais responsabilidade e outra confiança. Entrega às causas sociais e rigor em todas as acções desenvolvidas. A partir daí, nada mais.


Autor: Armindo Oliveira
DM

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17 fevereiro 2019