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Ponto por ponto

E agora, como será o PS e o que fará com a ambicionada maioria absoluta? Na governação, por certo, não haverá quaisquer problemas funcionais para deixarem de ser resolvidos, dado que os resultados das legislativas são demasiado categóricos. Também não pode perder tempo a arrumar as peças ministeriais ou a construir cenários matizados de pseudo-coligações.

Ponto um - Tudo está, à partida, definido e assente: Orçamento aprovado, distribuição de cargos, controlo do aparelho do Estado, aplicação dos fundos europeus, etc. Não há nada a opor ou a contrapor. A incluir este personagem no esquema ou a excluir seja quem for. Os socialistas têm tudo para terem poder absoluto. Se antes, já tinham tiques fortes do “quero, posso e mando” agora tudo se torna mais linear e mais claro. Os seus “homens” ocuparão inevitavelmente todos os cargos de chefia das instituições públicas. Todos sem excepção.

Ponto dois - O dr. Costa diz que governará com diálogo. Que ouvirá os outros partidos. Todos sabemos que não tem necessidade disso e que não é bem assim. Propósitos e propostas não rimam. Ter o poder e partilhá-lo não dá. Só se for por uma questão demagógica de charme, de parecer bem, de mostrar que está receptivo a outras propostas. Tenho dúvidas que isto possa acontecer. Não vai acontecer, com certeza, pois as palavras vão com o vento e “a história explica isso”. Quem tem o poder não o reparte. De modo nenhum. Ainda quer mais. Sempre mais. É assim que funciona a democracia com maiorias absolutas. Quer seja nas Juntas de Freguesia, quer nos Municípios. Não vale a pena construir ou engendrar outros cenários. Cenários de abertura a outros partidos e de aceitação de propostas, que não estejam em linha ou que sejam incompatíveis com a ideologia, mesmo que sejam vantajosas para o país, não se farão.

Ponto três - O PSD vai continuar na travessia do deserto. Do grande e árido deserto do poder. Desta vez, sem miragens. Aquela miragem que despontava no horizonte distante. Essa se desvaneceu. Quase inexplicável. Por um truque mágico. Miragem ofuscada pela exaustão. Só pode ser. As dunas da travessia do poder tornaram-se praticamente intransponíveis. Inacessíveis.

Ponto quatro - A derrota foi demasiado pesada. Incompreensível. Surpreendente. Até parece que os eleitores se juntaram todos, num acto concertado, em reunião magna, para tramar Rui Rio. A honestidade pessoal ainda não passa por este povo. Não conta. Uns euritos de aumento ou umas promessas do mesmo teor ainda fazem a diferença. Têm outro valor. Mesmo que sejam apanhados a dobrar a jusante por outras vias. Ainda dá resultado martelar sem pejo em preconceitos, em mentiras, em coisas perfeitamente surrealistas. Ainda deu resultado ressuscitar o fantasma de Passos Coelho, o homem dos cortes, dos sacrifícios, do diabo, da emigração forçada. Ainda deu resultado elevar aos píncaros o caso maquiavélico da prisão perpétua. Mitigado ou não. Exacerbado ou não. As mensagens marteladas das “linhas vermelhas” passaram livremente e aturdiram o eleitor como verdades irrefutáveis. Analisando mais ou menos bem a coisa, Rui Rio, líder da oposição, que se mostrou fraco na legislatura anterior, não tinha hipóteses de fazer melhor. Os altifalantes estavam em todo o lugar. O cenário maquiavélico da “maldita direita” estava bem construído. Bem sonorizado. A “direita” da privatização da Segurança Social; da TAP, a tal companhia de bandeira que leva milhares de milhões para se tornar um farrapo; do desmantelamento do SNS para o oferecer à Saúde Privada. Uns aumentozinhos são precisos para nublar a mente. Mérito do aparelho de propaganda socialista. E sem antídotos.

Ponto cinco - A esquerda extremista, BE e PCP/PEV levou nas “ventas”. Puseram-se a jeito e estão a pagar caro o frete de 2015. Impuseram o radicalismo e a crispação no país. Foram seis anos a chatear. A ouvir sempre a mesma treta. A reivindicar coisas do arco da velha. A provocar rupturas sociais. Convenceram-se que orbitavam na esfera do poder por mérito. Tornaram-se agora descartáveis. Até insuportáveis. Ficaram, por isso, reduzidos à insignificância.

O CDS desapareceu. Mas, não pode acabar. O Chega e o IL marcaram pontos. Comprometem-se a fazer a vida cara aos socialistas. O país precisa de uma oposição rigorosa, inteligente e atenta. Será difícil de a fazer com sucesso, porque do outro lado está o poder absoluto que não dará hipóteses de ser beliscado. Entretanto, vamos ver como o país se vai desenvencilhar da trama.


Autor: Armindo Oliveira
DM

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6 fevereiro 2022