A incompetência é tanto mais daninha, quanto maior seja o poder do incompetente.
Francisco Ayala - escritor espanhol (1906-2009)
Ponto um - O PSD está, há cinco anos, confinado numa cápsula de indiferença política. Está em letargia comprometida. Por opção. Também por imposição. Na realidade actual, a sua progressiva irrelevância tem-no inibido de erguer a voz e de poder afirmar-se como verdadeira alternativa ao descontrolo governativo vigente.
O PSD vê o descalabro económico e a desgraça social que avançam às claras e não reage. Vê o gigantismo da dívida e cala-se. Vê os alunos a tiritar de frio nas escolas, levando mantas de casa, e nada diz. Vê os maus resultados do 4. ano de escolaridade a serem trespassados para Nuno Crato e “moita caneco”, como dizia a minha avó. Aceita, sem evasivas, a cor vermelho escuro pintado no mapa da pandemia, sem vacilar. Ouve o líder do PS a rotular de “traidores” militantes de topo do seu partido e mete o rabo entre pernas. Que tristeza de liderança!
Ponto dois - Aperceber-se-á o PSD – é claro que se apercebe – que as ilusões e as fantasias comandam os destinos desta gente amordaçada? Gente que se deixa amordaçar por um prato amargo de lentilhas. Incompreensivelmente! Mas é verdade. É esta realidade alternativa que tem marcado esta governação desgovernada. O PSD sabe disso. Tem consciência disso.
Parece impossível tanto silêncio, tanta cumplicidade perante a situação dramática que o país atravessa. A complacência causa arrepios e logo numa altura em que o abismo está a um passo.
O alheamento político do PSD é notório, assim como a falta de ideias e de garra, a que se junta a desmobilização e o silenciamento. O trabalho de opositor ao governo, sua obrigação e seu dever estatutários, tem atingido níveis de desconforto que causa dó. Ainda por cima, o PSD, como partido importante na democracia, vai permitindo que seja sujeito, sistematicamente, a “bullings” ideológicos por esta esquerda arrogante e empobrecida como aconteceu com a comédia da ultrapassagem das “linhas vermelhas”, aquando a formação do governo regional dos Açores. É incrível como o PSD não reage e como tem engolido estes desaforos, vindos de quem não têm moral para nada dizer. Fica bem no seu canto, emudecido e demasiado manso. No final, são mais umas bandarilhas no dorso de uma democracia que vai cambaleando para se sustentar.
Ponto três - O PSD não reage com assertividade, de cabeça erguida aos casos, às polémicas, aos absurdos, até aos abusos que se vão passando ao nosso lado. Praticamente todos os dias. Casos muito sérios, polémicas gritantes e absurdos incompreensíveis. De abusos na colocação da sua tribo à frente dos palanques nacionais é a última gota do estado agónico da democracia nacional. E o PSD, calado como um peto, vê o país a afundar. A tocar na cauda da Europa. Um país exausto de nada fazer. À espera do carro-vassoura.
O PSD está amarrado a medos, a constrangimentos e a pressões inexplicáveis. Não consegue libertar-se dos estigmas impostos por linhas preconceituosas ligadas a ideologias retrógradas que o rotulam com chavões já gastos com intenções bem planeadas. Já nada o incomoda e nada o faz agitar da sonolência que o atingiu inexoravelmente. Dorme a sono solto. De olhos fechados. De ouvidos fechados. De alma fechada.
Amorfo e atado a desculpas esfarrapadas - “se lá estivesse eu, não sei se faria melhor” - o PSD continua o seu rumo em direcção à situação cúmplice de se limitar a ser oposição “ad eternum”.
Ponto quatro - O PSD está órfão de liderança. Rui Rio anda meio escondido ou mesmo perdido numa floresta de palavras vazias. Anda meio zonzo num ambiente demasiado poluído para a sua “formação” como político regional. Ainda não entendeu que a política, a nossa política, se joga num tabuleiro viciado e cheio de armadilhas. Cheio de truques. Rui Rio ainda não percebeu que da forma como age e como reage não serve para nada. Tem responsabilidades demais para aceitar este jogo desenxabido e sem sentido. O país merece mais.
A oposição precisa de outro líder. Um líder destemido, que enfrente os problemas de caras, que faça com inteligência e com classe a “vida negra” a um governo que não sabe ser governo. A um governo que se limita a iludir as pessoas e a levar o país para as incompreensões de 2011.
Autor: Armindo Oliveira