Este é um tema de reflexão, à partida, incomodativo e fracturante para mentes alinhadas na corrente ideológica de esquerda, aquela corrente que machuca com toda a facilidade as belas páginas da nossa História e denigre tendenciosamente o papel grandioso desempenhado pelos “abutres colonizadores”. Assumo esta reflexão por razões várias, mas fundamentalmente pela razão óbvio que estive, como militar miliciano, envolvido na “defesa da pátria” nas terras maravilhosas de Moçambique. Conheci bem Moçambique. Do Rovuma ao Maputo. Estive nas densas matas de Cabo Delgado, em Pundanhar, perto de Palma e em Nambude, perto de Mocímboa da Praia. Conheci cidades bonitas, em expansão, harmoniosas, bem arranjadas. Cidades construídas com o suor e o engenho de um povo que desbravou matos, drenou pântanos, abriu estradas, instalou “cantinas” e levou a língua e o sentir luso para todos os cantos deste imenso território. Conheci a fabulosa Ilha de Moçambique, Nacala, Porto Amélia (Pemba), Nampula, Beira e a esplendorosa Lourenço Marques (Maputo). Sim, Lourenço Marques, aquela cidade das avenidas. Cidade traçada a régua e esquadro e com uma baía de encher os olhos.
Ponto um- Ainda hoje me emociono, quando vejo imagens de Moçambique. Ainda hoje me revolto, quando vejo a miséria daquele povo: a pobreza completa, as carências extremas nos hospitais e nas escolas, por exemplo. Ainda hoje me desiludo com as “elites moçambicanas” que herdaram um país organizado, bem construído e com ambições e destruíram-no com as sementeiras de corrupção, de guerras fratricidas, de nepotismo descarado. Moçambique era um território maravilhoso, com uma pesca e agricultura pujantes, uma indústria inovadora, um comércio bem consolidado. Moçambique tinha um futuro radioso à sua frente.
E hoje? Dá pena ver este povo! O que vemos é um filme negro dum país que agoniza e vive de esmolas e de ONG’s. Dá pena ouvir relatos de gente que lá foi, depois da efectiva e “medonha descolonização exemplar”. Que fizeram deste país? Que fizeram! Transformaram-no num país falhado. Num país de pobres. Num país sem presente e, obviamente, sem futuro.
Ponto dois - No princípio, logo em 1975, a Frelimo, um bando de guerrilheiros esfarrapado e esfomeado, inculto e ignorante impôs a ditadura marxista, de partido único, que se encarregou de expulsar os “famigerados colonos”, roubando-lhes o que construíram com suor e arrojo. Depois, veio a pobreza generalizada. Em seguida, a guerra civil destruiu o resto. Hoje, temos um país, com um enormes recursos naturais, com corrupção de Estado abundante, com a pobreza a atingir 92,5% da população, com uma guerrilha islâmica activa no Norte e um bando de renegados no Centro. Temos um país sem ânimo para vencer as dificuldades na Saúde e na Educação, na Economia e na Segurança. Um país à deriva. Sem gente capaz.
Ponto três - Valeu a pena promover este tipo de independência com gente impreparada? Com gente do mato? Claramente, não! Foi uma desgraça para os moçambicanos. E esta desgraça vai perdurar por muitos e muitos anos. Aliás, nunca mais Moçambique voltará a ter o ímpeto, o crescimento, o bem-estar de 1974. Nunca mais. Tudo foi destruído. Destruído pelos dogmas marxistas, pela ignorância e pelo nepotismo. Essa comandita usou e abusou das “tretas” das liberdades, da África para os africanos, dos brancos colonialistas, do poder para os negros e outras tantas chalaças que só infernizaram a vida de todos. Moçambique criou pequenos ditadores e elites corruptas que se aproveitaram das riquezas do país e do medo de um povo.
Ponto quatro - A descolonização foi uma aldrabice, uma monstruosidade, um genocídio. Foi um acto racista e xenófobo intoleráveis para beneficiar somente a corrente ideológica da facção guerrilheira. Foi um tempo acobertado e sugado pelos soviéticos e pelos seus satélites do Leste que se lambuzaram com os despojos deixados pelos brancos, mestiços, mulatos, negros, todos lusos, que foram obrigados, à força do terror, a deixar o país. Foi um tempo de umas “elites” nacionais, demagógicas e estúpidas, que cederam cobardemente aos interesses do internacionalismo comunista. Foi um tempo em que as nossas elites políticas fizeram a figura triste de derrotados, quando desconheciam por completo a realidade que lá existia.
Autor: Armindo Oliveira