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Ponto por ponto

Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo” - Eça de Queirós - diplomata e um dos maiores escritores portugueses - (1845-1900)

Ponto um - Depois de 46 anos de democracia, há ainda uns tantos pensadores da praça nacional, afectos a uma certa casta política-partidária, que nos querem impingir a ideia arrumada que a democracia portuguesa ainda não atingiu a idade adulta. Não percebo! Mas, seguindo este ponto de vista, da imaturidade do regime e da fragilidade das suas instituições, temos sido, política e psicologicamente, preparados para pactuar com todos os desmandos que se cometem no quotidiano. Assim, a corrupção, as alianças habilidosas para usurparem o poder, o nepotismo, a incompetência, as teias de interesses, os ditos afrontosos em off têm cobertura democrática “legal”. Daí, a impunidade que campeia nas “altas esferas do poder ou dos poderes”, quando as coisas más acontecem, e a resignação que atinge o cidadão comum que, desarmado pelas fraquezas da Justiça e pela pouca exigência cívica, deixa cair os braços em sinal de desistência, limitando-se a aceitar cabisbaixo a migalha que lhe dão.

Ponto dois - Um povo politicamente esclarecido, civicamente responsável e socialmente sensível à verdade e à justiça teria um comportamento, para combater desvios degradantes de quem assume e domina o poder, mais inconformado e mais consentâneo com os padrões europeus. O facto da democracia só ter 46 anos de existência neste país não é desculpa para o nosso atraso social e económico, nem para justificar condutas titubeantes dos responsáveis pelos destinos de todos nós. A boa gestão, o empenho, a seriedade são atributos de formação, de consciência e de educação, de princípios e de valores pelos quais nos deveríamos orientar na comunidade nacional. Em contraponto, os escândalos avolumados que assolam o país, e alguns a aguardar julgamento, têm-se arrastado nas teias da morosidade do sistema de Justiça e nas dilações estratégias desenvolvidas pelos “juristas”, sempre com a intenção de salvaguardar o “direito” da presunção de inocência e de refutações pouco credíveis dos seus constituintes, para que passem impunes pelos supostos crimes que praticaram. Quem tem dinheiro e influência safa-se, quem não tem, terá que aguentar e, a estes, de seguida aplica-se a tal “dura lex”.

Ponto três - Enquanto os políticos e outros agentes com poder e influência vão desenvolvendo “imunidades” para se safarem dos pecados que cometem, o país vai definhando a olhos vistos. Por um lado o desemprego, o endividamento, os défices, a recessão económica e outras dificuldades do quotidiano são atenuados com doses abonadas de ficção, de propaganda, de anúncios de milhões e de contratações aos montes.Tempos depois, volta o governo a martelar na mesma tecla: mais milhões e mais contratações. E para todos os serviços. Estes exemplos são suficientemente motivadores para não se confiar nos políticos. Tudo isto é uma refinada treta.

Ponto quatro - Em linha paralela, quando um político de nomeada e mais esperto se vê em palpos de aranha por actos praticados, para evitar consequências gravosas e não responder criminalmente, demite-se do cargo ou, então, não se recandidata para escapar ao escrutínio popular. Casos destes têm acontecido amiúde. E depois “banham-se” nas águas do rio Lete.

Ponto cinco - Os lugares de influência, no poder e nas instituições, não são, nem podem ser destinados para os familiares e para os amigos. O país, a sua imagem, a sua eficiência, o seu prestígio têm que estar muito acima dos jogos da política, dos favores e da clientela.

Enquanto os melhores e os mais capazes não assumirem os lugares chave da administração pública, vamos continuar a ter um país adiado, pantanoso e pobre. E sempre como horizonte, um futuro escorregadio, de pobreza e nas mãos dos credores.

A estratégia da mão estendida e da espera das “solidariedades” dos “frugais” não é o melhor caminho para nos afirmar como país e como povo. Temos que ser nós, com o nosso engenho, esforço e espírito de sacrifício a construir esse país liberto das amarras ideológicas de uma esquerda teimosamente vesga e de um modelo de desenvolvimento baseado na subsídio-dependência, na mão-de-obra barata e na subjugação do sector privado ao omnipotente e omnipresente Estado. Temos um país com um excelente potencial para criar um outro futuro.


Autor: Armindo Oliveira
DM

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20 setembro 2020