twitter

Pecados de sacerdotes

Com alguma frequência, os meios de comunicação social confrontam-nos com o mau comportamento moral de sacerdotes católicos. Infelizmente, as razões do escândalo podem ser diversas, mas parece existir uma certa incidência pelos casos de abusos sexuais.

Ao consultarmos os Dez Mandamentos, verificamos que o melhor e mais perfeito conhecedor da conduta humana, que é o próprio Deus, teve o cuidado de dedicar ao tema da castidade dois mandamentos, acautelando-nos sobre este assunto de forma clara, no sentido de que a nossa intimidade, onde abundam os pensamentos e os desejos (9º Mandamento) deve estar livre de cedências pecaminosas nesta matéria, porque depois, com facilidade, as palavras e as obras (objecto do 6º Mandamento) andarão pelo mesmo caminho.

A virtude da castidade é uma afirmação gozosa do nosso amor a Deus e aos outros, não uma visão negativa ou escrupulosa de que este mundo não passa de uma realidade feia e nojenta em si mesma, pelo que nada de bom dele podemos esperar e por ele devemos caminhar, pé ante pé, fugindo de o enfrentar com temor patológico de ficarmos sujos por tudo e por nada, como costuma dizer-se.

Deus criou o homem e a mulher e incitou-os, desde o início, a crescer e a multiplicar-se. Desta complementaridade sexual provimos nós, pela vontade criadora de Deus, que quis deste modo possibilitar ao casal humano dar origem a novos seres, que têm como objectivo final da sua vinda à existência compartilharem com Deus, na mais profunda felicidade, a vida eterna. Para tanto, Deus deu ao homem um corpo orgânico e uma alma espiritual, que é imortal. Mas o corpo não fica esquecido por Deus quando ele morre e deixa de poder ser animado e unificado pela sua alma, pois ressuscitará no final dos tempos na condição de corpo glorioso.

Tudo isto nos ensina a fé cristã, que a Igreja defende. E pode ser vivido duma forma condizente com os princípios que nos ensinam os dois mandamentos referidos. O homem, porém, é um ser livre, pois foi criado à imagem e semelhança de Deus, que, por ser infinitamente perfeito (ou, se quisermos usar um pleonasmo, “perfeitamente” perfeito), é o maior respeitador da liberdade das criaturas que criou para serem livres. Nesta medida, estas podem ou não seguir as normas comportamentais que o seu criador lhes indicou, sabendo que se as rejeitam, acabarão por encontrar a infelicidade, já que também Deus é a origem e o fundamento único e essencial de toda a felicidade.

Se eu quero viver a virtude da castidade – também se lhe pode chamar da “santa pureza” – devo, em primeiro lugar, olhar para mim mesmo como uma criatura que Deus pôs na existência com o fim de atingir a felicidade eterna (o Céu) e lhe deu todas a possibilidades para aí chegar. Mais ainda: quis que eu O tratasse como um filho, pois é assim que nos ama. Dum modo familiar, aproximando-Se de nós com o carinho dum pai que, como na parábola do “filho pródigo”, nos perdoa todas as leviandades e fraquezas.

As outras pessoas devem ser por mim encaradas como filhas de Deus. Devo amá-las e respeitá-las como o nosso Pai comum o faz. De contrário, esquecerei o que são e transformo-as num objecto de prazer, nas quais eu busque apenas aquilo que me dá uma satisfação imediata, mas que nada tem a ver com a sua dignidade humana. Uma pessoa não é um travo delicioso de vinho ou um gelado apetitoso nestes dias calorentos. E, por isso, não a posso tratar com tanta superficialidade e animalidade.

Infelizmente, há sacerdotes que se esqueceram destas realidades. É triste e feio. Mas, se se arrependem com sinceridade e se decidem a pedir perdão (não lhes desejo outra coisa), não ficam fora da margem dos 70 x 7, que Jesus ensinou a Pedro. Oportunamente, nos nossos tempos, a autoridade da hierarquia eclesiástica, realçando a do Romano Pontífice, tem-se feito sentir com rigor, desassombro e sentido de correcção. O que não quer dizer que não seja profundamente desonesta e penosa a realidade destas ocorrências.

Para um cristão, perante um espectáculo tão doloroso, tem de haver sempre uma atitude positiva, que não consiste em lamentar-se como um Job hipócrita, em encolher os ombros como se o assunto não lhe dissesse respeito, ou ignorar o que acontece: deve rezar e sacrificar-se para que o que está mal se esfume e desapareça, já que a nada de exemplar e de positivo conduzem tais procedimentos desedificantes e absolutamente imorais.


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

DM

25 agosto 2018