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Partiu o Padre Marques

Foi com pesar que soube do falecimento do Padre António Marques, pároco de Valdreu e do seu lugar de grande atração turística e religiosidade popular “Santo António de Mixões da Serra” desde a altura da sua ordenação, em 1972.

Foram diversos os agentes da comunicação social que encabeçaram a notícia da morte do Padre Marques, reduzindo-o a um sacerdote que benzia animais, mas que é, seguramente, muito pouco para qualificar 46 anos de missão ao serviço da Igreja, mais concretamente nas comunidades do arciprestado de Vila Verde.

De facto, o Padre Marques era conhecido por dar corpo a uma tradição que remonta à primeira metade do século XVII, altura em que, segundo se conta, uma peste dizimava muitos animais da aldeia de Valdreu. Recorde-se que, à época, a pecuária era de importância fundamental para manter a vitalidade da atividade agrícola, principal sustento da população naquela região.

Foi neste contexto, de algum desespero até, que as gentes de Valdreu concentraram as suas preces em Santo António, pedindo a sua interceção na resolução daquele flagelo, prometendo construir um templo no alto do monte que hoje é o cenário escolhido para todos os anos, no domingo que antecede o dia 13 de junho, milhares de pessoas trazerem os seus animais para a tradicional Bênção dos Animais, por muitos menosprezada, mas que traz, em si mesma, um simbolismo e um significado para as pessoas de Valdreu que o Padre António Marques soube sempre valorizar, respeitar e manter viva.

É de acentuar que uma pequena capela do século XVII deu lugar ao atual Santuário construído, já no século XX, com o grande esforço monetário da população, tendo em conta a sua grande devoção a Santo António, protetor dos animais.

O Padre Marques, conhecido em todo o concelho de Vila Verde, serviu até ao fim da sua vida as comunidades que o acolheram para dar corpo à vocação do sacerdócio. Deixa nas nossas memórias a imagem de um homem simples, talvez até, demasiadamente simples, mas igual a si próprio, genuíno na forma de ser e de estar, preferindo as mangas arregaçadas à formalidade de uma gravata.

Guardo nas minhas memórias também a imagem de alguém a quem qualquer pretexto era válido para estar entre amigos, à mesa ou fora dela. Era o Padre Marques que dinamizava muitos dos convívios onde tive o prazer de estar presente e onde pude dar conta do seu enorme sentido de humor e boa disposição.

Quando soube da minha entrada no curso de Medicina, o meu pai organizou um convívio lá em casa com os nossos amigos para partilharmos dessa alegria. O Padre Marques foi convidado e deixou uma carta, dirigida ao meu pai e a mim que, na altura, guardei comigo.

Era uma carta do nosso amigo Padre Marques, onde demonstrava a alegria de partilhar connosco aquele momento de felicidade, não perdendo a oportunidade para um bom conselho e com palavras que ficaram, para sempre, nos nossos corações. Procurei a carta e, hoje, sentidamente partilho com todos vós.

Dizia assim: «Meu caro amigo Salvador, é com muita alegria que te escrevo esta carta, toda ela repassada de sentimentos de alegria e grande prazer académico, ao saber que o teu filho Luís entrou para Medicina. Hoje é um dia de festa para todos nós que legitimamente nos consideramos amigos. Espero que saibas ajudar muito o teu filhote dispensando-lhe amor e carinho, para que ele seja um médico em plenitude e possa exercer uma missão altamente nobre que é dar saúde aos doentes, dar vida a quem não tem vida! Espero, finalmente, desejar-lhe boa sorte e que o céu e a terra não se esqueçam deste jovem que saiu do caminho da banalidade para encontrar o Caminho da Esperança. Boa sorte te deseja o amigo Padre Marques. Diz o ditado que só vence quem luta. Pois que a tua luta seja em defesa do bem, em defesa da saúde. O amigo, Padre Marques».

Que descanse em Paz.


Autor: Luís Sousa
DM

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13 fevereiro 2018