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Para uma simbólica do pão (I)

O evangelho da multiplicação dos pães e dos peixes (Mt 14, 13-21), ontem proclamado, fez-me pensar na riqueza simbólica do pão e trouxe-me à memória uma afirmação de Mircea Eliade, o grande estudioso da história das religiões: “Em quase todas as culturas e em muitíssimos sistemas religiosos, pão e água não são apenas comida e bebida, são sinais de comunhão; não são somente alimento físico, mas também nutrimento espiritual”.

Ao evocar todo o alimento, o pão torna-se um dos maiores símbolos da vida! Não é por acaso que o trabalho com que se angaria o sustento se chama “ganha pão” e não admira que, com o pão partilhado na refeição, se celebre a vida que nasce e o amor que cresce e se reforça. Do mesmo modo, se fortalece a amizade, se estabelece contactos de trabalho, se sela cerimónias oficiais e se celebra as festas que marcam o ritmo da vida. Nalgumas culturas, chega mesmo a ser relevante o “banquete do luto”, na conclusão do rito fúnebre.

Sustento primário da vida (“pão e vinho, já se anda o caminho”, diz o ditado), o pão é tão sagrado que, nalgumas culturas, quando se tropeça num pedaço, recolhe-se de imediato e, ainda hoje, os beduínos não cortam o pão com a faca, por o consideram um ser vivo: “O pão não se mata”, dizem eles. Durante muitos séculos e em todas as latitudes, a vida doméstica gravitou em torno do pão: sementeira, colheita, preparação e degustação. Sendo um dos produtos mais importantes de todas as civilizações, não admira que o rodeie uma forte e densa atmosfera simbólica.

Na Escritura, e mais concretamente no Antigo Testamento, podemos falar mesmo de “um vocabulário do pão”, com inúmeras nuances simbólicas, de que destacamos apenas algumas. O pão evoca todo o tipo de alimento humano, na quantidade necessária e suficiente (Pr 30, 8). Privar dele alguém é muito grave: “O pão dos indigentes é a vida dos pobres; aquele que lho tira é um homicida” (Sir 34, 21). “Comer o pão das lágrimas” é viver uma experiência humana dolorosa (Sl 42, 4; 102, 10). Dar pão ao hóspede é uma das leis da hospitalidade (Gn 18, 5-6; 19, 3; 1 Rs 17, 11).

O pão é um dos alimentos divinos que fortalecem Elias para prosseguir o seu caminho (1 Rs 17, 2-6.8-16.; 19, 5-8). No cativeiro da Babilónia, o profeta Isaías convida o povo a alimentar-se gratuitamente do pão, do vinho e do leite de Deus (55, 1), deixando de lado os ídolos da Babilónia. Para ele, o jejum que agrada a Deus consiste, entre outras coisas, em repartir o pão com os esfomeados (Is 58, 7).

Porém, a força simbólica do pão transforma-o em sinal de valores mais elevados. No deserto, o maná (Ex 16, 13-15), “pão do céu” (Sl 78, 24-25; 105, 40), é sinal da providência divina que sempre responde às necessidades do seu povo. Na terra prometida, o povo é convidado a observar “a festa dos pães sem fermento” (Ex 23, 15) e a colocar sobre o altar os pães da oferenda/proposição (Ex 25, 30; Lv 24, 5-9; Nm 4, 7 chama-lhe “o pão da oblação perpétua”) que só os sacerdotes podiam comer (Lv 22, 10-16; Mt 12, 1-4). São sinais de gratidão e reconhecimento pela libertação do Egito e pelo dom de uma terra que, em última instância, a Deus pertence. Assim se lembra ao povo que “nem só de pão vive o homem; de tudo o que sai da boca do Senhor é que o homem viverá” (Dt 8, 3; Mt 4, 4). Há, de facto, outras fomes que não só a de pão: “Eis que vêm dias (...) em que lançarei fome sobre o país. Não será fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor” (Am 8, 11).

Por razões óbvias, deixamos para a próxima semana a não menos rica simbólica neotestamentária do pão.


Autor: P. João Alberto Correia
DM

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3 agosto 2020