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Para o Tiago, quarenta anos depois!

Quarenta anos depois, “intimado” por bons amigos, vi-me confrontado com o regresso aos palcos. Era algo que não fazia parte das minhas perspetivas pessoais. Devo confessar que a minha primeira reação, ao invés de um não rotundo, foi acometida de uma curiosidade viciante em torno do que me reservava o encenador. O que queria aquela companhia de teatro, a Malad’arte comigo, sabendo do meu afastamento do teatro: interpretar uma personagem da “Nova Cartilha do Povo”, da autoria de Santos Simões, Vítor Sá, António Marinho Dias, Humberto Soeiro, Lino Lima e Margarida Malvar, no âmbito das comemorações do centenário de nascimento de Vítor Sá. Escrito em 1969, o texto evoca-nos para a tomada de consciência da realidade portuguesa criada e alimentada pelo Estado Novo e a assunção da consciência individual e coletiva sobre os direitos políticos, a democracia e a liberdade. O texto, como o(a) leitor(a) já terá percebido, confronta-nos com a “Aurora da Liberdade” que se adivinhava em Portugal, o que só aconteceria cinco anos depois de ter sido escrito. Que motivos tinha eu, num momento em que vivemos mais anos em democracia do que ditadura, de me furtar a assumir qualquer responsabilidade numa área e numa arte tão difícil como o teatro, para evocar precisamente os 48 anos “a não esquecer”? – Deixei-me envolver de mansinho pela envolvência do texto, enquanto me confrontava com os medos e receios de que podia estragar tudo, por falta de experiência acumulada. À medida que o jovem encenador e talentoso, Tiago Fernandes, filho da Democracia, desmontava em palco os seus argumentos e nos acalentava com a sua dinâmica, sentia o peso da responsabilidade e ao mesmo tempo, uma necessária disponibilidade para trabalhar e levar o projeto até ao fim. Na passada quinta-feira, reabriram-se, de novo, as páginas da Cartilha, escrita há 53 anos, e todos pudemos, os que estiveram em palco e os que assistiam, evocar e homenagear os Democratas que sacrificaram as suas vidas para que pudéssemos estar e viver em Democracia e gozar das amplas liberdades. Confesso-me emocionado ao trabalhar o texto, no palco do café Vianna, perante essa grande senhora e resistente Margarida Malvar e pelo seu companheiro e resistente, Joaquim Loureiro, a par de tantos e tantas que acorreram ao espaço para assistir à leitura encenada. Oxalá, o Tiago Fernandes aceite o repto que lhe foi lançado por mim para que se faça a leitura encenada da segunda e terceira parte da Cartilha, em 2023 e 2024. Não importa se estarei lá, mas urge a necessidade de dar continuidade à feliz ideia da Fundação Bracara Augusta quando convidou a Companhia a fazê-lo. Importa, igualmente, que este texto vá para além dos palcos e seja capaz de se transformar na ponte tão necessária entre o esquecimento e a necessidade de aproximarmos as novas gerações de um passado que deve ser uma referência para a construção do futuro. A homenagem aos Democratas em marcha, na região de Braga, tem o condão de criar pontes, unir diferentes perspetivas e fortalecer as fundações do Estado de Direito. Nos diferentes palcos, em que se desenham muitas e boas iniciativas, adivinha-se que será possível mobilizar boas vontades e recursos necessários para dar corpo à legitima e tão necessária homenagem. O mote foi dado pela Comissária nacional para as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, Maria Inácia Rezola, na sua visita à exposição de fotografia de José Delgado Fernandes, no Mercado Municipal de Braga. A sua sintonia com os objetivos do programa de Braga, reforça a convicção de que estamos no caminho certo para não esquecermos os que ainda estão entre nós e clamar, sem pestanejar, a presença de todas e todos, nesta Festa da Democracia. Dentro em breve será divulgada a composição da Comissão de Memória, cujo propósito é dar a conhecer os que ente nós, estando vivos, merecem uma justa e prolongada homenagem, sem esquecer os que tombaram e foram desaparecendo da memória sem que muitos, se quer, soubessem do seu papel e do seu trabalho. Estamos todas e todos convocados para ir além das circunstâncias, das evidências por vezes mesquinhas e contraditórias, despindo argumentos pejados de maledicência. É uma obrigação coletiva e individual que só se constrói se formos capazes de elevarmos esta homenagem acima da visão retórica dos Velhos do Restelo que nada fazendo e sem saber o que fazer se limitam a desconfiar de todas e de todos, na sua velha presunção egoísta e egocêntrica que tanto mal tem provocado à Democracia.


Autor: Paulo Sousa
DM

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16 outubro 2022