Já fomos um país declaradamente rural, situação que nos permitia que pouco dependêssemos do exterior em termos de produção agrícola; e esta realidade confirma-se na emigração massiva que se inicia na década de 60 do século passado, sobretudo de portugueses cuja subsistência dependia do amanho da terra e, como tal, insuficiente e pobre.
E esta fuga aos campos agrava-se com o desencadeamento da guerra colonial de África que arrasta os jovens trabalhadores rurais; e, regressados da guerra, a maior parte deles, porque viram outros mundos e contactaram novas realidades e viveram novas experiências, jamais retorna ao trabalho agrícola.
Assim se gera o despovoamento dos campos e se espoleta uma cada vez maior dependência das importações, mormente de cereais e seus derivados tão vitais na alimentação do povo; e destes se destacam os que são a base do pão que entra na alimentação diária dos portugueses: o trigo, o arroz, o milho, o centeio, a aveia e a cevada.
Depois, com a entrada na União Europeia dá-se um fenómeno devastador para os setores vitais da nossa economia: agricultura, pesca e indústria, porque a construção naval já fora praticamente desmantelada; e este fenómeno baseia-se numa política de subsídios à não produção o que redunda no abandono definitivo das terras, no desmantelamento dos barcos, no corte das vinhas, no fecho das fábricas e, consequentemente, numa agravada dependência do exterior que, assim, beneficia as suas maiores empresas que dão saída fácil aos seus produtos que nós compramos com a tal política de subsidiodependência.
Pois bem, o resultado está, neste momento, à vista: segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), Portugal, no ano passado, teve de importar 98% dos cereais que necessita para se alimentar; e o custo das compras ao exterior cifrou-se em 733,5 milhões de euros; à partida uma enorme sangria de dinheiros estatais que alimenta o monstro da dívida pública.
E, continuando a análise dos dados do INE, há 30 anos que não semeávamos tão pouco; por exemplo, na era de oitenta semeávamos quase um milhão de hectares; e, em 2016, semeamos, apenas, 130 mil hectares constantes de centeio, trigo, cevada e triticale, continuando o milho a não ter importância, a não ser para a alimentação do gado.
Ora, tudo isto significa um desinteresse confrangedor dos agricultores pelo incremento da terras e do tipo de cultura e, logo, leva a uma maior dependência do exterior, porque sai mais barato comprar fora do que produzir internamente a que se juntam fracas condições climáticas e uma menor aptidão natural para o cultivo de cereais; e, assim, surgem os novos celeiros do mundo: a América e alguns países do leste europeu.
Daqui resultam razões fundamentais para o não cultivo de cereais, como sejam: a desertificação do interior, a falta de mão-de-obra, e a pouca que existe é demasiado cara, e o lógico e frequente cada vez maior abandono da terra; e mais grave e concludente, uma falta evidente de vontade política dos sucessivos governos para dar a volta à situação, investindo na agricultura e nos demais setores económicos ligados à terra.
Agora, pensando nós que no Estado Novo o Alentejo foi o celeiro de Portugal e após o 25 de Abril, por obra e graça de certas políticas e políticos, se transformou numa terra de ninguém, onde a reforma agrária semeou o caos, apoiada pelas ideologias coletivistas; e, expulsos os proprietários agrícolas e com a política da terra a quem a trabalha, o Alentejo colapsou por largos anos.
É, então, com a construção da barragem do Alqueva que a esperança parece de novo renascer para essa imensa e úbere terra; e, onde anteriormente se cultivavam os cereais de sequeiro, surgem agora a vinha, o olival, os frutos secos, o tomate, o girassol, a pera e a amêndoa, e decididamente numa feliz aposta de futuro.
Mas, tudo isto com uma enorme diferença: os proprietários do atual e renovado Alentejo são, na sua maioria, estrangeiros; e a única força que os move é tornar sua a terra alheia, sugando-lhe o melhor sangue e exportando-o para os seus países; e isto por falta, desgraçada e infelizmente, de portugueses com vontade, aptidão e saber para explorar os recursos que são nossos e muitos são; e voltar a fazer do Alentejo o celeiro de Portugal.
Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado
País dependente demais
DM
12 dezembro 2018