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Padre Roberto Malgesini, mártir da caridade

Há notícias que não podem ficar esquecidas, até pelas provocações positivas que constituem para todos e cada um de nós. Este sacerdote, natural da Diocese de Como, no norte de Itália, era uma vocação adulta, pois já tinha uma ocupação como empregado num banco quando decidiu seguir o caminho do sacerdócio. Era o mais novo dos 4 irmãos: dois irmãos e uma irmã. Os pais ainda estão vivos. Sem dar nas vistas nem chamar as atenções para o que fazia, mesmo quando o multavam por levar comida aos sem abrigo ou refugiados a passar fome, este sacerdote de 51 anos vivia a Caridade com maiúscula. Não era um mero agente de uma qualquer ONG (Organização Não Governamental) que, movido por razões humanitárias, levava refeições aos sem abrigo. Não, ele, primeiro, alimentava-se de Quem realmente podia reacender nele, cada dia, o verdadeiro Amor, para que a sua acção com os mais carenciados e frágeis da sociedade fosse um tocar as chagas do crucificado/ressuscitado que, com a sua presença e a dos voluntários que o acompanhavam, garantisse, além do pão do corpo, o pão ainda mais saboroso e alimentício do amor totalmente desinteressado. Por isso se levantava cedíssimo e, pelas 4 da manhã, já estava na Igreja em colóquio com o Mestre. Depois, pelas 6,30h começava a preparar os pequenos almoços para levar aos seus amigos desprotegidos. A ele se podem aplicar palavras de João Aguiar em Fragmentos : «Quem ama e é amado, começou a ser eterno» (n.º 200) Foi numa das manhãs de há poucos dias, 15 de Setembro, uma terça-feira, que ele, estando a acabar de preparar os pequenos almoços para levar aos sem abrigo e outros carenciados, foi agredido e morto à facada por um emigrante tunisino que há anos ajudava. Poucos minutos depois, o agressor entregava-se voluntariamente à polícia, havendo fortes indícios de estar psicologicamente perturbado, como o referiu Papa Francisco na audiência geral do dia seguinte, definindo o padre Roberto como 'mártir da caridade'. Que o padre Malgesinni tinha especial predilecção pelos mais carenciados e isso suscitava sadia admiração do seu bispo e sacerdotes, prova-o o ter sido convidado para escrever as meditações para a Via Sacra de Sexta-Feira Santa de 2018. Mas ele nada fazia para se dar a conhecer na sua entrega aos descartados da sociedade. Tudo procurava fazer no mais completo silêncio e anonimato. O funeral do padre Malgesinni constituiu uma impressionante manifestação das pessoas à obra que ele realizava. Para observarem as normas sanitárias, puseram ecrãs gigantes em 3 praças circundantes à igreja de Como São Rocco ,onde 7 bispos e dezenas de sacerdotes celebraram a liturgia da Vida que brota da morte, sobretudo quando é uma morte pela vivência da Caridade. O cardeal Krajewski, o esmoler do Papa Francisco, presidiu à concelebração eucarística. O bispo diocesano definiu-o como incansável e silencioso no trabalho ao serviço dos mais frágeis. Mártir da caridade e da misericórdia, com um estilo humilde e reservado. Alguém que morreu e por isso está vivo, porque o Amor não morre nunca, porque não há amor maior do que dar a vida pelos amigos. O cardeal Krajewski representou o Papa Francisco e disse que o Papa rezava, sofria e alegrava-se com a comunidade de que tinha saído um tal sacerdote. Levou consigo terços do rosário para oferecer às pessoas, aos carenciados e um para levarem ao que o tinha assassinado, para que possa converter-se realmente e retomar um caminho de verdade e de paz. Mas um rosário especial, em pérolas, era para entregar aos pais do padre Malgesini que, devido à idade, não puderam estar presentes fisicamente. Iria o próprio cardeal levar-lhes os terços em pérola e beijar-lhes as mãos por terem educado um filho que foi capaz de dar um tal testemunho vivo de Caridade, Amor e Misericórdia. Só à luz da fé entenderemos um amor assim, capaz de uma entrega total, cada dia. E que para o poder fazer se alimentava do único que gera verdadeiro Amor em nós: Jesus, que por nós se entregou à morte e ressuscitou, está vivo e acompanha-nos no nosso caminhar, se por Ele nos deixarmos moldar com fortes momentos de oração e escuta e meditação da Palavra de Deus. Tem razão João Aguiar: «Não há esperança se o coração não quer. / sim, tens de desejá-la e aceitá-la como um dom; e alimentá-la de sol nos dias embaciados ou se a noite desce» (n. 207) Entrados no Mês do Rosário, que bom seria se as famílias compreendessem que, se querem viver unidas no verdadeiro amor, o melhor caminho é o da união com Jesus e Maria. E o Rosário é um meio magnífico, como aliás Nossa Senhora insistentemente pediu em Fátima.
Autor: Carlos Nuno Vaz
DM

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3 outubro 2020