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Os sinais do Papa Francisco

No dia em que foi eleito Papa (13 de Março de 2013), Jorge Bergoglio apareceu à varanda da Catedral de S. Pedro e deixou alguns sinais de uma mudança que, com o tempo, veio a tornar-se mais evidente: a simplicidade das vestes, a forma coloquial como se dirigiu à multidão, o modo simples e natural como rezou, o nome que escolheu (evoca a simplicidade e a bondade de Francisco de Assis, a quem, no início do século XIII, foi confiada a missão de restaurar a Igreja).

Desde essa altura, o Papa Francisco não cessou de nos interpelar com a sua insistência na dimensão espiritual da Igreja e na opção preferencial pelos pobres; com o seu despojamento, coragem, humildade, defesa intransigente dos direitos humanos, das minorias e dos cristãos perseguidos. Tudo isto se tem tornado evidente nos seus ensinamentos (as suas encíclicas são referências incontornáveis), gestos proféticos e viagens apostólicas.

A última dessas viagens foi ao Iraque, “berço da civilização”. O objetivo fora traçado pelo próprio Papa, dias antes de partir: “Na terra de Abraão, juntamente com outros líderes religiosos, daremos um (...) passo em frente na fraternidade entre os crentes”. A trigésima terceira viagem do seu pontificado, para fora da Itália, constituiu uma peregrinação ousada, carregada de aventura e de coragem, um momento histórico da relação entre o Cristianismo e o Islão, um contributo ímpar para a paz, no Médio Oriente e em todo o mundo. Serviu ainda para dar visibilidade planetária a um verdadeiro holocausto cultural e espiritual, levado a cabo pelo “Estado Islâmico”.

O Papa Francisco pediu respeito pela comunidade cristã iraquiana que, desde o fim da segunda guerra do Golfo (2003), vem sendo perseguida e martirizada. Em menos de vinte anos, passou de 1,5 milhões para 250 mil cristãos (uma redução de mais de 80%). A essa comunidade, endereçou palavras de conforto e de esperança, tão necessárias como úteis, em tempos difíceis.

Quem acompanhou a viagem apostólica não terá ficado indiferente à fragilidade papal e à contrastante força de uma presença exemplar (cfr. 2 Cor 12, 10), de palavras fortes e de gestos eloquentes. Em apenas três dias, percorreu alguns milhares de quilómetros, passando por Bagdad, Najaf, Ur (terra natal de Abraão [Gn 11, 31]), Erbil, Mossul e Qaraqosh. Encontrou-se com a comunidade cristã, com responsáveis políticos e líderes de outras religiões. Deteve-se, em oração, perante as ruínas da devastada cidade de Mossul, testemunha de um verdadeiro atentado à civilização, à espiritualidade e à cultura. Em Najaf, cidade sagrada e centro de peregrinação xiita, encontrou-se com o Ayatolah (o termo significa “sinais de Alá/Deus”) Al Sistani, “um homem humilde e sábio”, no dizer do próprio Papa.

Falou com todos, sem preconceitos, com a determinação e a lucidez dos homens que, por estarem ao serviço de Deus e da humanidade, recusam-se a servir interesses ideológicos ou económicos. E isso faz dele um arauto do evangelho, um promotor da paz (“Chega de violências, extremismos, facções e intolerâncias”, assim o afirmou, no primeiro discurso que proferiu no país) e um defensor dos direitos cívicos e religiosos dos povos, com créditos reconhecidos.

Na pátria do “pai dos crentes” e berço das religiões abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo), o Papa Francisco deu a entender que não pode continuar desavindo quem tem uma origem comum e persegue os mesmos objetivos, ainda que por caminhos díspares.

Obrigado, Papa Francisco, pelos sinais e provocações, pelas mensagens para o exterior e para o interior da Igreja. Levadas a sério, tocam-nos e entusiasmam-nos a viver a fé com mais simplicidade, coerência e encanto; tornam-nos pessoas melhores e cristãos mais genuínos.

*Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)


Autor: P. João Alberto Correia
DM

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15 março 2021