1. Quando se fala de alguém por quem temos estima e respeito, normalmente dizemos que é boapessoa; mas, se gostamos mesmo e admiramos essa pessoa, então acrescentamos que é uma pessoa simpática, justa, honrada, honesta, generosa, trabalhadora, solidária... Scott Kaufman, psicólogo na Universidade de Columbia, nos USA, que tem estado a fazer um trabalho sobre este tema, desenhou um perfil de ser boa pessoamais ou menos semelhante, mas acrescentando a dimensão do relacionamento social e da capacidade de reconciliação, um aspecto mais relevante na cultura americana: “boa pessoaé aquele que interage bem com os outros, que vê sempre o melhor nos outros, que é rápido a perdoar, que aplaude o sucesso dos outros, que não manipula as pessoas…”. E, para tornar operacional a aplicação geral dessa definição de boa pessoae evitar redundâncias, resumiu em três as características desse perfil: humanismo,kantismoe fé na humanidade.
1.1. Por humanismo, entende a atitude de acreditar no valor dos outros, na dignidade inerente à pessoa humana, quem quer que seja o indivíduo de quem falamos;
1.2. por kantismo, expressão conotada com o pensamento do filósofo alemão Immanuel Kant, entende a atitude de tratar as pessoas como fins em si mesmos e não como peões involuntários num jogo pessoal de interesses ou de poder manipulados por outros;
1.3. por fé na humanidadeentende a atitude de acreditar que os outros são fundamentalmente bons e que não pretendem aproveitar-se da boa-fé dos semelhantes.
2. Estes santos da vida quotidiana, como lhes chama Scott Kaufman, isto é, estas boas pessoas, ao mesmo tempo que contribuem para o resto do mundo com a sua gentileza, o seu modo de ser e de estar na vida, também beneficiam com o retorno do seu próprio comportamento, reforçando o seu sentido de identidade e satisfação dos seus relacionamentos e ajudando a desenvolver a sua capacidade de observar a realidade fora de si (quanto mais abertos, menos defensivos),o seu entusiasmo, o seu amor, a sua bondade, o seu trabalho em equipa, a sua capacidade de perdão e de gratidão... Isto é, ao serem bondosos e solidários com os outros estão a realizar-se a si mesmos como pessoa… E o seu bom exemplovai induzir nos outros uma atitude semelhante.
3. Este perfil humanista da personalidade remete basicamente para o postulado rousseauniano da bondade natural da pessoa, para a teoriainterpessoalde Sullivan e para a corrente culturalista de vários construtores de teorias da personalidade (muitos deles idos da Europa para fugirem da perseguição nazi), assim como, com recurso ao pensamento filosófico de Kant, aprofunda o seu conceito de autonomia da pessoa, destaca a bondade do valor da relação social e a dimensão dos laços de fraternidade e a capacidade de perdão, que até agora era apenas reservada ao nível do religioso. Não se trata, aqui, de uma atitude de secularização ou apropriação de conceitos que até agora têm estado no domínio do religioso, mas de uma emancipação progressiva da ciência, realçando o valor da pessoa humana em si mesma; e, muito importante também, acentua a avaliação positiva da personalidade, na linha da Psicologia positiva. É que, até há pouco, a análise qualitativa dos traços de bondade da pessoa estava quase especificamente ligada ao domínio do religioso.
4. Sublinho a avaliação positivada personalidade, que é um dos sinais positivos da cultura de hoje. Há uns 20 anos atrás, os psicólogos retratavam a personalidade de uma forma negativa, mais por aquilo que não devia ser, mas sem apontar caminhos e modelos de como podia ser. Ficou muito conhecida a tríade negativa dos traços de personalidade: narcisismo, maquiavelismo, psicopatia.Ainda hoje, para muita gente, falar de escândalo vende mais do que falar de virtude (está na moda esse tipo de jornalismo…), o que mostra duas coisas: como a cultura do negativo ficou tão arraigada e como ainda são poucos aqueles que sabem falar da beleza e da bondade com a paixão e o encanto de quem as vive (quer dizer que o discurso racionalizantee despersonalizado ainda é mais usado do que o discurso pessoal e existencial). Se reparamos, o discurso religioso ainda continua bastante refém dessa abordagem negativa, insistindo mais nos pecadosque nasvirtudes,dirigindo-se sempre aos outros na 2.ª pessoa do plural, sem se implicar a si mesmo, tornando-se distante da partilha da realidade concreta do grupo… Como mudar isto? Antes de mais, mudando de atitude para que, depois, a linguagem fale da experiência pessoal do sentido de proximidade e de compromisso com o grupo… o que vai implicar um novo estilo de acção e de liderança.
Autor: M. Ribeiro Fernandes