twitter

Os partidos políticos que temos

Frequentemente nos interrogamos sobre os partidos políticos que temos; mormente, sobre as suas bases programáticas e ideológicas, os seus propósitos político-sociais, a sua coerência e transparência; e, claro, sobre a sua independência de juízo e de ação e a sua honestidade intelectual para com o eleitorado. E as conclusões a que chegamos são deveras desencorajadoras e, até, penalizadoras, quando analisamos o sistema democrático em que vivemos; porque desencorajadoras, obviamente, para o povo que tem de escolher quem o vai governar e penalizadoras para os líderes partidários que se apresentam a sufrágio. Mas, qual a razão de aqui chegarmos? Sem dúvida por vermos os partidos políticos a pensarem mais nos seus interesses e nos dos grupos que os apoiam do que nos interesses da maioria do povo que é a razão primeira da sua existência; e de concluirmos mesmo que eles não passam de clubes de amigos e compadres. Sabe, por acaso, o meu amigo leitor qual a percentagem nacional de militantes nos nossos atuais partidos? Segundo estudos recentes de alguns politólogos, apenas, um a dois por cento (1% a 2%) da população portuguesa; o que quer dizer que em cem portugueses somente um ou dois é parte ativa na vida política, ou seja, milita num partido político. Agora, pensemos no resultado efetivo a que esta preocupante realidade nos conduz: uma minoria de pessoas a controlar a vida do país e que, assim, tem na sua mão e determina o destino de todos nós; e esta não deixa de ser uma confrangedora e triste realidade que se traduz em frequentes fenómenos de má gestão, caciquismo, populismo, chapeladas, compadrio e corrupção. Ora, porque é que isto acontece e resulta em escandalosas faltas de transparência, ações demagógicas e populistas e caciquismos vários dos líderes, quer nacionais, quer regionais e locais? Fundamentalmente devido à organização e funcionamento dos partidos políticos que levam ao desinteresse, à falta de intervenção e participação, primeiramente, dos mais capazes e, depois, da população em geral; e que, deste modo, consentem que esse punhado de políticos e seus sequazes pense, decida e faça por eles. E é, por esta via, que os partidos políticos se transformam facilmente em agências de empregos, em arenas de lutas internas pela liderança e em clubes de autopromoções e de interesses privados e de pequenos grupos; o que nos leva a concluir que, genericamente, a militância partidária não resulta da qualidade, honestidade e bons propósitos de quem milita, mas, tão-só, de golpes de oportunismo, arranjismo, cunhismo e tachismo com evidentes danos para a sua imagem de integridade e credibilidade pública. Pois bem, certo como é que não há Democracia sem partidos políticos, certo é também que não pode ser com partidos como estes que a sua vitalidade e verdade se afirma; e o cidadão que tem de fazer o seu posicionamento democrático e as suas opções político-sociais de acordo com o que pensa e quer enfrenta dificuldades e constrangimentos vários para o conseguir; e acaba mesmo por baixar os braços e virar as costas, praticando, assim, uma cultura de indiferença, resignação e abstenção. Então, somente uma mudança de atitude e comportamento das pessoas que passa por uma intervenção e participação responsável e ativa na vida política na sua autarquia, no seu local de trabalho, nos grupos de amigos e nos foros e reuniões partidárias, fará com que os políticos respeitem os seus princípios, opções e valores definidos nas escolhas que faz e, obviamente, evitem os desvios, atropelos, negações e demagogias em que são useiros e vezeiros; sobretudo, impeçam que essa minoria de cidadãos que milita, manda e comanda os partidos políticos pratique a demagogia, a mentira a trampolinice, usando e abusando de falsas promessas, mundos cor-de-rosa e práticas antidemocráticas. Porque, no fundo, a estes donos dos partidos políticos sempre preocupa o que, no momento de decidir, está mais de acordo com aquilo que lhes dá maior garantia de conquista do poder, borrifando-se para as necessidades, bem-estar e felicidade do povo; desse povo que, sendo por natureza pacífico, cordato e bem-intencionado, facilmente levado é no engodo e manipulado com, apenas, um ou dois pratos de lentilhas. Agora, a conclusão a que chegamos é simples, evidente, mas trágica: ou os partidos políticos se reformam, se ativam e se expurgam dos vírus que lhes destroem as estruturas e virtualidades e, deste modo, fazem renascer e revitalizar a paixão democrática no povo ou, então, a saúde e sobrevivência da Democracia fica em risco; e é, aqui, que a balbúrdia republicana de 28 anos (da sua implantação ao início do Estado Novo) a todos, mas sobretudo aos partidos políticos, deve servir de alerta para os perigos em que estamos a deixar cair a vida democrática. Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado
DM

DM

7 fevereiro 2018