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Os partidos de uma pessoa só e a capacidade política

Os partidos de uma pessoa só, sem ideologia definida e sem referências históricas pragmáticas, com suporte apenas na existência de um popular político providencial, mesmo que possam ter por um momento alguma expressão eleitoral, não costumam durar muito tempo.

Basta analisar, entre outros, o caso do PRD de Ramalho Eanes, do Partido Democrático Republicano de Marinho Pinto, do Partido Aliança de Santana Lopes ou mesmo do Livre, para confirmar isto mesmo.

Embora no caso do Livre ainda seja cedo para perceber se a sua atual amorfa presença política é apenas um erro momentâneo de percurso devido à escolha de Joacine Katar Moreira ou se é algo de mais estrutural, uma vez que Rui Tavares assenta grande parte da sua ação política em ideias e visões da sociedade e não apenas pelo jeito discursivo.

O Bloco de Esquerda, partido que, para muitos distraídos, consegue disfarçar a sua ideologia comunista, por pouco seria um caso semelhante aos referidos quando viveu quase exclusivamente do excelente protagonismo do bem preparado Francisco Louçã.

O Bloco de Esquerda, no entanto, ao contrário dos outros, soube não depender apenas de um homem, tendo consistência programática interna, conseguindo assegurar uma boa sucessão após o percalço de uma liderança dual, desenvolvendo uma ação política oportunista centrada em questões mais populistas dirigidas ao grande público de votantes, num tipo de atitude inspirada em Hugo Chaves da Venezuela que foi seguindo também por Lula da Silva no Brasil.

Para um partido deste tipo as duras medidas necessárias para combater a bancarrota foi uma bênção dos céus.

E agora, com contornos muito semelhantes ao início do Bloco de Esquerda, temos o Chega.

O que é o Chega, qual a sua definição programática, quem são os seus dirigentes, o que de real propõe para o país ? Alguém sabe ?

O Chega dispõe de momento de algumas condições que o podem fazer impor politicamente, embora faltando saber se o fará de forma duradoura. Vejamos quais são:

Em primeiro lugar, o seu homem providencial, André Ventura, tem discurso fácil e claro que penetra muito bem no público, quer se goste ou não do seu conteúdo. A acrescentar a isto o Chega pode cobrir alguma franja de eleitorado que nunca teve representação eleitoral, alguns normalmente abstencionistas e outros descontentes.

Assim como aconteceu no início do Bloco de Esquerda, estes eventuais votos serão votos de protesto.

Em segundo lugar o Chega vai viver também do estado frágil do CDS atual que sobreviveu muitos anos graças ao político Paulo Portas, mesmo depois de esmagado pelo PSD, mas que cavou a sua sepultura final ao ter escolhido um líder sem história e desconhecido dos portugueses.

No entanto – até como militante do PSD – vejo com especial preocupação que o Chega possa crescer também graças ao posicionamento político atual do PSD que, esquecendo o seu grande número de votantes de centro direita, privilegia muito mais a identidade com o PS e muito menos a sua diferença com este partido. Ora foi esta atitude de oposição ao PS que muito contribuiu no passado para todas as grandes vitórias eleitorais do PSD.

Aliás, André Ventura, por perceber isto, é que vem tentar identificar-se oportunisticamente com Sá Carneiro, atitude que revolta qualquer cidadão esclarecido, uma vez que o pensamento e ação do fundador do PSD está nos seus antípodas. Aí André Ventura engana tanto como engana a neo comunista Catarina Martins quando afirmou ridiculamente que o Bloco de Esquerda seria social democrata.

Aliás, basta observar os tempos excelentes de Cavaco Silva para perceber que algo vai mal no PSD, se a maioria dos votantes do CDS, descontentes com o seu partido, manifestam mais simpatia por outro partido que não o partido de Sá Carneiro, conforme demonstram vários estudos de opinião.

O Bloco de Esquerda cresceu muito graças à incapacidade do PCP a quem tirou muitos votos. Seria bom o PSD perceber isto para não lhe acontecer o mesmo devido ao Chega.

Ainda é cedo, no entanto, para perceber se o Chega conseguirá fazer o percurso semelhante do Bloco de Esquerda ou se cairá como caíram todos os outros partidos de uma pessoa só.


Autor: Joaquim Barbosa
DM

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23 setembro 2020