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Os pais que são uma praga nas escolas

Durante todo o meu tempo como aluno, e durante muito tempo dos estudantes antes e depois do 25 de Abril, a ida de uma mãe ou de um pai a um estabelecimento de ensino era raríssima e quase sempre por razões que os encarregados de educação consideravam vexatórias. Era garantido que o educando sofreria pelo menos uma forte admoestação em casa. Durante todo esse tempo como aluno no Liceu Sá de Miranda nunca houve notícia de que alguma mãe, algum pai ou algum familiar de qualquer um dos meus colegas de turma (ou de qualquer estudante conhecido) lá tivesse ido, exceptuando o justificado caso da mãe de um deles que era professora na casa. Se um dos progenitores se deslocasse ao estabelecimento de ensino, o estigma da vergonha macularia irreversivelmente o orgulho das crianças ou dos adolescentes que fomos. Os tempos mudaram e agora, amiúde, há pais que se tornaram uma praga para as escolas. Não faltam, por exemplo, os que, sendo incapazes de proporcionar domesticamente um módico de educação, aparecem na escola para reclamar por tudo e por nada que acontece às suas meninas ou aos seus meninos. Não se pode, claro, generalizar, mas não é benéfico ocultar o pernicioso papel de tantos pais que não cuidam de fazer o que devem em casa e que se intrometem abusivamente naquilo que é o trabalho específico dos professores nas salas de aulas. Estes encarregados de educação metediços não abrandam, aliás, as suas investidas quando os filhos ingressam na universidade. Que sejam humilhados nas praxes não lhes suscita visíveis incómodos, mas se um professor perturba a modorra da prole, insurgem-se vigorosamente. E tendem a engrossar a voz se se der o caso de se julgarem com um pouco mais de dinheiro ou se se tiverem como influentes junto de algum poder da localidade. O paroxismo desta singular inconveniência encontra-se agora nos grupos que os pais constituem nas redes sociais, particularmente no WhatsApp, que é bem mais do que uma aplicação de mensagens. Recentemente, para contrariar o que julgaram ser a minha incredulidade, mostraram-me as mensagens de uma mãe – por acaso também professora – que, no período de confinamento, gravava as aulas online que decorriam através da plataforma Teams, para as difundir, invectivando-as. A pronúncia da professora de Inglês e o modo pouco elegante como a docente se vestia mobilizavam muita da sua irada pesporrência. Expressando-se num português atamancado, duas mães concordavam. Quando se saúda a intervenção dos pais na educação dos filhos é necessário simultaneamente explicar que, como recomenda a expressão popular, cada macaco deve saber estar no seu galho. Sobre os malefícios dos grupos de pais metediços no WhatsApp há abundantes notícias na imprensa portuguesa e estrangeira. Lendo-as, no Correio da Manhã, por exemplo, ficamos a saber do sarilho causado por uma mãe que anunciou erradamente que uma professora da turma ia faltar no dia seguinte ou do mal-estar causado por outra mãe que “adora questionar” tudo o que faz a educadora que criou o grupo, “em tom de gozo”. Também educadora, mas não estando a exercer, essa mãe dá sugestões de como seria ela a fazer ou responde pela colega quando algum encarregado de educação coloca alguma pergunta. Para não multiplicar as referências, refira-se apenas mais uma: “Uma funcionária de uma escola confirma o caos que um simples grupo no telemóvel pode causar: ‘Um problema mínimo toma proporções gigantescas e a maioria das vezes sem fundamento. Assim como a maioria dos problemas entre alunos também resulta de discussões via WhatsApp’” (1). O Correio da Manhã assinalava também o que se sabe: “O fenómeno não é um exclusivo nacional”, acrescentando que o jornal brasileiro O Globo se interrogou: “Como sobreviver aos grupos de pais no WhatsApp?”, informando que 77 por cento dos incidentes escolares envolveram aquela aplicação (2). Outro jornal, o britânico Financial Times, citou a diretora de uma escola em Londres que diz que passa mais tempo a desmentir notícias falsas espalhadas pelos grupos de WhatsApp do que a tratar dos assuntos relacionados com os alunos (3). O mais deplorável dos exemplos tivemo-lo no passado dia 16. Em França, um professor – Samuel Paty – foi assassinado por um fanático islamita que o quis punir por causa de uma aula sobre liberdade de imprensa. Antes, através do WhatsApp, tinha havido uma troca de mensagens entre o criminoso e um encarregado de educação, responsável por inflamar a animosidade contra o docente (4). Há um género de pais que representa uma praga para as escolas. A sua influência torna-se ainda mais perniciosa por causa da amplificação nas redes sociais. As aprendizagens dos mais novos – e a própria educação – beneficiariam sem tão nefasta presença assídua no quotidiano dos estabelecimentos de ensino. (1) https://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/grupos-de-pais-do-whatsapp-fugir-deles (2) https://oglobo.globo.com/saber-viver/como-sobreviver-aos-grupos-de-pais-no-whatsapp-23417742 (3) https://www.ft.com/content/7a0034ce-7590-11e9-be7d-6d846537acab (4) https://www.rtl.fr/actu/justice-faits-divers/assassinat-de-samuel-paty-l-assaillant-et-le-parent-d-eleve-incrimine-avaient-echange-sur-whatsapp-7800907656
Autor:
DM

DM

25 outubro 2020