“Aquele condutor atrás de mim esqueceu-se da carta de condução. Se tivesse esta aplicação no telemóvel, provavelmente já ia a caminho de casa. Explicamos-lhe tudo daqui a pouco no Contas-Poupança”. Emitido na SIC na quarta-feira passada, o brevíssimo anúncio da reportagem que iria ser transmitida pouco depois no Jornal da Noite, o noticiário televisivo emitido pela SIC à hora de jantar nos intervalos da publicidade, ilustra o que é uma ideologia muito bem sucedida, designada por “solucionismo tecnológico”.
O jornalista parece acreditar que os condutores que não se lembram de se fazer acompanhar pelas cartas de condução não se esquecerão dos telemóveis, o que, sendo plausível, não é garantido. Em conformidade com o “solucionismo tecnológico”, a mensagem, mesmo que eventualmente involuntária, é simples: se há um problema, há uma aplicação para o resolver.
Em Para salvar tudo, clique aqui: A loucura do solucionismo tecnológico, um livro não editado em Portugal, Evgeny Morozov questiona as consequências sociais e políticas da ideologia propagada pelas grandes empresas tecnológicas de Silicon Valley. Como o título indica, o “solucionismo tecnológico” é uma espécie de loucura que leva os cidadãos – ou os governos ou as autarquias – a acreditarem que qualquer problema social, económico ou político é resolúvel com recurso a um simples clique.
A miragem é aliciante: os problemas da saúde resolver-se-iam com tecnologia; os problemas da educação resolver-se-iam com tecnologia; os problemas ambientais resolver-se-iam com tecnologia; qualquer problema, enfim, se resolveria com tecnologia. Sobre esta ilusão, prospera o modelo de negócio das empresas de Silicon Valley e das suas sucedâneas. Mas, como é regra, cada solução cria novos problemas.
Este “solucionismo” tem um impacto social nocivo que se garante ultrapassar com acrescidas promessas tecnológicas. Mas nem todos têm acesso às tecnologias, nem, de entre os que têm, todos possuem competências para as usar.
No mesmo dia em que na SIC se falava de uma aplicação milagrosa, no site Vox, noticiava-se que, nos Estados Unidos da América, com a ascensão do 5G (a 5.ª geração de redes de Internet móvel), as operadoras de telecomunicações vão suspender a rede 3G. A decisão, que também já foi anunciada em outros países por algumas operadoras, vai precipitar a obsolescência de incontáveis dispositivos ainda em uso e mergulhar na “insegurança digital” um número incalculável de utilizadores. Indica a notícia que, entre os donos dos dispositivos que ficarão ultrapassados, se encontram idosos, habitantes de zonas rurais, pessoas com baixos rendimentos, sem-abrigo ou sobreviventes de violência doméstica. Como estas pessoas apenas recorrem a estes dispositivos em circunstâncias extremas, elas podem demorar a perceber que os seus telemóveis já não funcionam, o que poderá criar um sério problema de segurança [1].
Esta obsolescência, tendo, portanto, um custo social elevado, ao provocar uma ampla “insegurança digital” – isto para não referir que a produção de telemóveis não tem dispensado, frequentemente, o trabalho escravo em países africanos ou asiáticos –, tem também um custo ambiental excessivo.
Para obter lítio, usado na composição de baterias de telemóveis, Portugal poderá ter de pagar um preço insustentável. O Público noticiava ontem que a Direcção-Geral de Energia e Geologia reconheceu que as actividades de prospecção de lítio “acarretam riscos, incluindo possíveis ‘efeitos nefastos’ sobre a fauna e a flora das áreas em causa”.
Além disso, “poderá nem haver um benefício económico a compensar o impacto ambiental: os efeitos positivos sobre as economias dos municípios abrangidos serão apenas ‘residuais’ e poderão mesmo ser negativos, tendo em conta o impacto sobre o turismo destas regiões” [2].
Difundido como uma simpática quimera, o negócio do “solucionismo tecnológico” serve-se dos humanos. Usa-os e, se não forem fonte de lucro, descarta-os. De facto, os adeptos desta nova moda ideológica encaram as pessoas como um instrumento ao serviço da tecnologia.
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes
OS DIAS DA SEMANA Se há um problema, a aplicação resolve
DM
6 fevereiro 2022