A transição para um mundo digital tem sido frequentemente apresentada como a miraculosa panaceia que salvará o mundo da catástrofe ambiental. AConferência dasNações Unidassobre Alterações Climáticas (COP 27) que, entre 6 e 18 de Novembro, faz da cidade de Sharm el-Sheikh, no Egipto, o palco mundial das discussões sobre alterações climáticas, forneceu mais uma oportunidade para insistir na apologia da mezinha. Mas aqueles que advertem quanto aos efeitos perversos do remédio também se têm feito ouvir, ainda que, por enquanto, sem consequências significativas.
O digital constitui um “ângulo morto das políticas ambientais e climáticas”, assinalava em 2020 um relatório do Senado francês sobre as consequências ambientais do digital, citado num artigo assinado por Pierre Thiesset no jornal La Décroissance de Outubro [1]. Esta falta de visão pode, pois, conduzir ao desastre. Num texto fundamentado, o autor constata “que se tem começado a abrir os olhos para estes problemas”, razão por que “a ilusão da desmaterialização já não é persuasiva”.
Também citado pelo jornalista, o Conselho Nacional do Digital francês, um organismo consultivo nomeado pelo primeiro-ministro, explica que “os impactos ambientais são particularmente nefastos em relação à exploração dos recursos naturais não renováveis, à poluição causada pela extracção de metais e pelos detritos e ao consumo energético”.
Ainda que os números dos cálculos possam ser divergentes, eles convergem quanto ao essencial. Por exemplo: “O digital produz mais gasescomefeito de estufa, causadores do aumento da temperatura do planeta, do que a aviação – algo que representa um aviso à ‘geração clima’ sempre tão agarrada aos smartphones e às redes sociais”.
Outro exemplo apresentado: “O visionamento de vídeos on-line gera tantos gases com efeito de estufa quantos os que são gerados por um país como a Espanha, dizem os engenheiros do Shift Project, que consideram ‘insustentável’ o crescimento dos nossos sistemas digitais”.
O essencial é simples. “Neste sistema ‘de envergadura mundial’, ‘os terminais (smartphones, computadores, tablets, etc.) conectam-se através de infraestruturas de redes (cabos terrestres e submarinos, antenas de redes móveis, fibras ópticas, etc.) de modo a trocar informações armazenadas e tratadas em centros de dados, os corações vivos deste sistema. Ora, cada um destes elementos necessita de energia não apenas para funcionar, mas também para serem produzidos: “a extracção mineira das matérias-primas e os processos industriais, seguidos da distribuição até à chegada aos consumidores consomem recursos”.
Entre os cálculos apresentados pelo jornalista, alguns há que deveriam merecer especial atenção. Um deles, que se encontra numa obra sobre sobriedade digital de Fréderic Bordage, indica que, para fabricar um computador portátil de 3 kg, é necessário cerca de uma tonelada de matérias-primas e 200 kg de gasescomefeito de estufa. Outro dá conta que um simples chip electrónico de 2 gramas precisa de 32 kg de matérias-primas. E um smartphone, cujo fabrico requer uma cinquentena de metais, necessita de cerca de 250 kg de matérias-primas.
O digital acelera, portanto, a extracção de recursos, fazendo multiplicar o número de minas em todo o mundo. Frédéric Bordage considera que esta sobrexploração é considerada “insustentável”, uma vez que, “ao ritmo actual, as matérias-primas usadas na produção de equipamentos digitais estarão esgotadas em uma ou duas gerações”.
Aos que dizem que é possível a reciclagem, tem-se contraposto uma constatação: “O lixo electrónico multiplica-se, contaminando os solos e deformando a composição dacrosta terrestre”, escreve Pierre Thiesset, citando Guillaume Pitron. E um relatório da ONU, citado pela Greenpeace, revela que 75% do lixo electrónico escapa aos canais legais de reciclagem [2].
Os números impressionam. Se tudo continuar como até aqui, em 2035, o sector digital emitirá mais gases com efeito de estufa do que aqueles que, em 2020, emitem todos os veículos terrestres motorizados juntos, avisa Les Horizons, um media on-line dedicado à transição ecológica [3].
Sintomática é a circunstância de o optimismo perante a digitalização do mundo ser contrariado, talvez involuntariamente, pelos próprios operadores de telecomunicações. Pierre Thiesset assinala que a Bouygues Télécom garantiu que “os operadores não podem simultaneamente reduzir drasticamente as suas emissões de gasescomefeito de estufa e aumentar a capacidade das redes para responder a uma procura cada vez mais forte”.
Talvez seja o momento de promover uma “desescalada tecnológica”, para usar uma expressão de Julia Laïne e Nicolas Alep, ou, se se preferir, uma “sobriedade digital”. Talvez tenha chegado a hora de, contrariando o deslumbramento e submissão perante o digital, valorizar, como defende Pierre Thiesset, “a interioridade, a presença carnal e sensível ao mundo, o contacto com os outros, a troca de palavras sem interfaces tecnológicas”.
[1] “Sobriété numérique : écrasons les écrans”
[2] “La pollution numérique, qu’est-ce que c’est?”. Disponível em: https://www.greenpeace.fr/la-pollution-numerique/
[3] “La Sobriété Numérique” Disponível em: https://leshorizons.net/sobriete-numerique/
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes
OS DIAS DA SEMANA Por uma sobriedade digital
DM
13 novembro 2022