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OS DIAS DA SEMANA É a guerra*

Vi este menino duas vezes. Podia ter sido um olhar fugaz, mas não. Reparei nele em dois momentos. Tem o cabelo louro. Comprido em cima, rapado dos lados. Sei que nome tem. Julgo que não o conseguirei pronunciar correctamente. Posso tentar calcular a idade, mas é improvávelque alguma vez a venha a saber ao certo. Sei o nome da mãe, mas não o do pai. Julgo que não me enganaria se dissesse em que cidade nasceu, mas não imagino onde vive agora. Não tenho como saber se gosta de ler. E, se sim, que livros prefere? Talvez aprecievideojogos. É provável que sim. Quem sabe? Gostará de cinema? Terá filmes preferidos? Gostará de séries? De desenhos animados? Tem irmãos? Aparentemente, não. Terá heróis? Heroínas? De ficção ou reais? Gostava de saber que sonhos acalentou. E com que sonha agora, se é que sonha. Pesadelos, tê-los-á, por certo, mas sou incapaz de os imaginar. Como seria o quarto dele? Teria janelas? O que podia observar? Não há como descobrir se teria um parque perto de casa. E os avós? Estão todos vivos? Terão sofrido com a pandemia? Vi este menino duas vezes e nada sei sobre ele. Parece amável. Terá muitos amigos? Seria desarrumado? Ajudaria nas tarefas caseiras? Não sei onde estuda. Onde estudava, porque agora não o deve fazer. Não sei que disciplinas tinha, nem de quais gostava. Teria um professor preferido? Uma professora? Quem seriam os colegas? Algum seria seu confidente? E saberia guardar segredos? É fácil supor de que tem medo agora, mas, antes, que medos o atormentavam? Zanga-se muitas vezes? E permanece zangado durante muito tempo? Também gostava de saber se é religioso. E, se sim, em que Deus tem fé. Ainda tem fé? O que é que lhe ocupa mais o pensamento? Sim. Em que pensa? Aparenta ser um menino amado, mas quem são os que gostam dele? Teria um gato ou um cão? Um cão, julgo. Colecções. Colecciona alguma coisa? Ou coleccionava? É possível que tivesse uma bicicleta. Se ainda a tiver é bom sinal. Pediria aos pais sapatilhas de uma marca específica? Imaginará que muitos são os que lhe ofereceriam com gosto uma mochila nova? Não sei que músicas escutará. Terá agora vontade de cantar? Alguma vez teve? Gostará de doces? Quem lhe preparava o prato preferido? Há quanto tempo o não prova? Saberá que Portugal existe? Na língua dele, como se dirá a palavra infâmia? Já a terá escutado alguma vez? Dita por quem? Vi este menino duas vezes. Quem o protege? A mãe, certamente. Alguém mais? Vi o menino na televisão. E, de cada vez, não o vi durante mais de dois ou, no máximo, três minutos. De facto, quase só lhe vi o rosto. Apenas uma parte dele, a primeira vez. Quando, nesse momento, o vi, na televisão, encontrava-se com o rosto emoldurado por uma ligadura. A imagem mostrava-o na cama de um hospital e aí permanecia da segunda vez em que reparei nele. Estava, com certeza, melhor. Não ficou bem, mas estava melhor. Se o tradutor foi rigoroso, o menino disse: “Começaram a disparar contra os pneus, à distância. Depois aproximaram-se e começaram a disparar contra os vidros. Aproximaram-se mais e a minha mãe gritou: ‘Não disparem. Há pessoas aqui dentro.’ Cobri-me com a minha mochila e isso salvou-me. Graças a isso não levei um tiro na cabeça, apenas na cara”. Este menino. Que memória guardará do pai, morto a tiro, no mesmo instante, pelos militares russos? A guerra deixará muitos escombros e, no rosto desta criança, vê-se a dimensão da tragédia. Não descobri como estava o céu da Ucrânia no dia em que lhe fizeram mal, mas lembro-me das nuvens que, por essa altura, havia no céu português. Saberá o menino que, longe, alguém reza por ele? Quem desejará que Deus o bendiga? Não sei quantos querem que ele e os meninos como ele cresçam em paz, que tenham alegria, que combatam pela justiça, que lhes seja possível nunca saberem o que é o cinismo. *Texto originalmente publicado na revista Defacto, do Agrupamento de Escolas de Alberto Sampaio, no número 30, publicado em Maio.
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes
DM

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6 novembro 2022