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O sucesso mora ali

Há uns anos atrás, na primeira incursão por terras alemãs, deparei-me com uma cidade a sair de uma longa cura de profundas injustiças que marcaram o seu desenvolvimento económico e social. Nos bairros de Dusseldorf, na cintura industrial, proliferavam ainda as marcas do que tinha sido um período de instabilidade e uma guerra sem quartel entre habitantes e governo local. A sua forma de vida era claramente contranatura; dificilmente as autoridades entravam nos bairros constituídos por famílias desintegradas, economicamente débeis e cheia de violência gratuita. A minha experiência, quando entrei no bairro, foi fantástica. Um rápido contacto com alguns habitantes, deixava perceber como tudo tinha mudado: o plano de desenvolvimento local, agilizado pelos seus habitantes e pelo governo da cidade, tinha sido um sucesso, ao fim de tantos anos de costas voltadas. A formação e a capitalização dos seus recursos, foram pensados para se tornarem locais de múltiplas experiências, umas originais, outras consensualizadas e respeitadoras dos princípios da conciliabilidade. Não foi uma tarefa fácil; demorou alguns anos mas foi fruto da capacidade negocial dos agentes locais de inserção que tudo se tornou possível. O primeiro impacto que tive foi com a habitação. Múltiplos desenhos, inspirados no universo do Walt Disney, estavam primorosamente desenhados nas paredes dos prédios, impecavelmente preservados pelos seus habitantes que mostravam, na breve visita, o orgulho dos seus proprietários. A solução nem sempre resulta e provavelmente não é exportável. Mas serve de exemplo e pode significar, para a nossa realidade, uma via de solução de conflitos em torno de bairros que constituem, por si só, uma dor de cabeça para as cidades portuguesas. Um dos projetos de inclusão mais notáveis que conheço, a par do alemão, provém do outro lado do Atlântico. Em algumas cidades brasileiras, os processos de inclusão e de gentrificação andaram de mãos dadas com a construção de espaços abertos e multiplicação de soluções duradouras como a biciclização dos bairros sociais e a sua inclusão como guias turísticos, constituindo um exemplo não só para a mobilidade, mas para a sua capacidade de integração. Por cá, são poucos os exemplos inovadores que permitam falar em sucesso social e vitalidade económica, mas há políticas aqui que vale apena registar. A mais recente que conheci foi desenvolvida num bairro social de Braga e é um ponto de partida para repensar a forma clássica de abordagem à sua problemática. O uso da bicicleta, enquanto instrumento de prática desportiva é um caminho seguro para a mudança comportamental. Não é o único, mas é um sinal positivo e por demais evidente de como soluções práticas podem ser assimiladas de forma positiva, respondendo às expectativas locais, contrariando soluções clássicas fora do tempo e do espaço. A juventude é e deve ser catalisadora da Mudança e isso deve constituir um exemplo a seguir em cidades que, durante décadas, centraram as suas políticas de resposta à degradação social de bairros de lata, construindo e multiplicando bairros sociais que se tornaram guetos impraticáveis para a sua sociabilização. Braga tornou-se exemplo no passado ao acabar com a sua proliferação e a integrar as famílias em diferentes áreas urbanas. A solução, não isenta de pecadilhos, mostrou-se positiva e de alcance notável, mas não respondeu às necessidades evidenciadas nas zonas degradadas onde continua a ser insustentável, a manutenção de um status quo que se degrada de forma repetitiva, por muito boa que seja a intenção de investir na sua reabilitação. Não há soluções milagrosas, mas há passos como os que foram dados em diferentes cidades europeias, que ajudam a resolver a degradação social. A intervenção integrada em torno da capitalização humana local, é um caminho e uma solução com trabalho a médio prazo, para se resolverem problemas que só os habitantes locais, podem liderar. Desistir não é, neste capítulo, aceitável, mas insistir com políticas consistentes e de envolvimento dos seus habitantes, de proximidade dos serviços públicos como lojas de cidadão, tornam cada projeto, cada investimento, cada ajuda, uma solução viável. Acredito que só por esta via, se poderá chegar ao momento em que cada bairro social, deixará de o ser, pelos motivos que tornaram estes locais, espaços contranatura do direito à cidade e à urbanidade constante dos seus habitantes.
Autor: Paulo Sousa
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11 outubro 2020