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Não foi só Martin Luther King que teve um sonho. Deus também tem um sonho para a humanidade. Carlo Maria Martini descreve «o sonho de Deus»: «o sonho de um outro mundo, de um outro modo de ser no mundo».
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E este sonho começa logo no momento inicial, na criação. Como percebeu o notável exegeta – e Arcebispo de Milão –, criar «não significa apenas que Deus faz existir algo, mas que Ele vence o caos e quer a ordem, a justiça, a harmonia e a paz».
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Deus «quer um mundo habitável, onde seja bom viver, um mundo onde se possa dizer – como Pedro – “Senhor, como é bom estarmos aqui” (Mt 17, 4)». O que falta, então? Falta que à operação de Deus corresponda a cooperação do homem.
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Deus entregou a Sua obra – a terra –ao homem (cf. Gén 1, 28). E nós «destruímos a natureza sem pensar que Deus quer que este mundo possa ser habitado – e ainda por muito tempo –com a possibilidade de vivermos e de respirarmos, de desfrutarmos da beleza da natureza».
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Deus também sonha com um mundo «em que não haja alguns prepotentes a arrasar os outros». E que a Igreja «seja um lugar onde se viva bastante bem, onde não existam suspeitas, temores ou denúncias falsas».
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É certo que este sonho divino «se realizará no reino perfeito, com o regresso de Cristo». Mas sabemos também «que, desde já, nos é pedido que não o percamos de vista e, se possível, o antecipemos».
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É neste sentido que, entre os «verbos de Deus», Carlo Maria Martini insere os verbos «libertar» e «ordenar». Parecem antagónicos. E, hoje em dia, há quem propugne uma liberdade sem ordem. Trata-se, porém, de um monstruoso equívoco que lesa – e acaba por destruir – a própria liberdade.
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O agir libertador de Deus está amplamente demonstrado na Escritura. Ele toma sempre partido pelos povos oprimidos e pelas pessoas humilhadas.
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Israel, após a libertação do Egipto, promete «fazer tudo o que o Senhor mandar» (Ex 19, 8). É que os Mandamentos são instauradores da liberdade que respeita, da liberdade que pensa nos outros, que não se fecha em si mesmo.
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Os Mandamentos de Deus «têm em mente o bem do povo e, por isso, promovem a justiça e a equidade». Basta olhar para o Mandamento do Sábado (ou do Domingo para os cristãos). É um mandamento de repouso, «em contraste com civilizações orientadas apenas para a produção e exploração». Vamos continuar a adiar o «sonho de Deus»?
Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira