Todo o preconceito é como um pré-pagamento: pagas mesmo antes de comer. Não vou abordar os já conhecidos preconceitos homofóbicos, rácicos, de género, sexuais e mais estes e aqueles que proliferam na nossa mente socialmente amestrada. Só uma mente construída de fora para dentro é que condena ou aprova mesmo antes de pensar. Não julga apenas papagueia. São mentes enquistadas pelo uso de obediência. Endureceram na rotina e adormeceram por preguiça de divergir. O preconceito que hoje aqui tento analisar, é o partidário. Nada melhor do que ilustrar esta escrita com um exemplo: “não quero ver nem ouvir nada doutros partidos, porque o meu partido é o partido que foi do meu falecido”. Isto não é um voto, é uma promessa. Outros dizem, “não vale a pena convencerem-me, eu sempre votei no mesmo”. Isto não é um voto é uma rotina. Estes preconceitos têm medo do debate de ideias e tapa os olhos e os ouvidos a outras razões, formando uma clubite política. Diz um amigo meu, a respeito do futebol: “o meu clube pode ser o último mas é, e será sempre, o meu clube. Sou fã do meu clube e pronto”. Em política é quase assim, transformando os democratas em tiffosis. Isto não é um voto, é fanatismo. Como aquela viúva tapam os olhos e os ouvidos às razões doutras ideias. Eu penso que estes preconceitos por uso e tradição, pelos vistos até por promessa, ou por clubite, são uma fraqueza democrática. São não só uma fraqueza democrática como é uma alienação do sujeito. Fraqueza, porque retira à democracia aquilo que ela tem de mais saudável que é o confronto de ideias e de ideais, mesmo com aqueles que se situam no patamar da utopia, ou defendem causas perdidas. E alienação porque embota o pensamento, afunilando-o e dirigindo-o para um beco sem saída que é o preconceito. Estabeleceram-se alguns destes preconceitos na textura eleitoral portuguesa, devido a generalizações deste tipo: quem é da direita é fascista, e quem é da esquerda é democrata. Ora isto não é verdade porque se formos a analisar as ideologias em confronto, isto é, os que são democratas ou os que os não são, teremos de concluir que a direita portuguesa não é fascista, nem a esquerda, representada pelo PC e BE, é democrata. O PS é de esquerda democrática, porque é social-democrata. Neste espaço também temos o PSD. Não sejamos preconceituosos contra nenhum dos partidos, mas não quereremos nunca esquecer que os votos nos partidos do xadrez político português, estão assegurados com os preconceituosos. Os livres – cerca de um milhão voam sozinhos sem peias de espécie alguma. Votam segundo um critério de escolha. São os que não são sombras de terceiros, movimentam-se como figuras livres; olham pelos seus próprios olhos e pensam pela própria cabeça. Não se deixam convencer pelas convicções dos outros. Quer ser como eles? Rasgue as trapeiras que lhe tapam a visão dos horizontes. Tenha “sentimento de si” e ganhe o estatuto da dignidade de ser votante. Quer saber como é? Pergunte a si por que razão vota em tal partido e, se encontrar uma razão justificativa, então vote e pode ficar satisfeito porque encontrou a validade do seu voto. Não caia na história do voto útil, seja coerente com a sua escolha e vote. Não faça como aquela senhora que ia votar em determinado partido porque o candidato era simpático. Minha senhora, votar não é um concurso de simpatia; vote pelo valor dele e não porque tem um sorriso simpático! É uma ofensa que faz à sua validade julgá-lo com esta ligeireza. Então ele só vale pelo sorriso? Aquele em quem vamos confiar a governança tem de valer muito mais que um sorriso simpático. Este sorriso fez um preconceito nesta senhora.
Autor: Paulo Fafe