Sempre que assisto aos debates presidenciais há algo que surge no meu pensamento que vou partilhar, em jeito de reflexão, com os leitores:
Marcelo Rebelo de Sousa, pacientemente, semana após semana, durante muitos anos, preparou a sua candidatura presidencial através de um espaço televisivo.
Não lhe faltando habilidades tanto como comentador como comunicador, tendo sempre grandes audiências, muito cedo foi sendo conhecido de um vastíssimo público que, não por acaso, é publico também eleitor.
Assim sendo, saltar de comentador para candidato presidencial é um salto muito fácil de ser feito.
Não viria mal ao mundo se isso não acarretasse uma vantagem demasiadamente desproporcional face aos seus concorrentes. Concorrentes esses que se sujeitam durante anos a fio à atividade pública ou política, com uma grande empenho pessoal e político, mas não conseguindo sequer se aproximar da notoriedade de Marcelo que, apesar de não ter atividade política há anos, participa em programas de televisão permanentes
Assim, parece-me muito pouco democrática esta desigualdade de circunstâncias, que tem como consequência uma grande desigualdade de posição face a outros concorrentes na disputa eleitoral para a presidência.
Bem sei que Marcelo Rebelo de Sousa também foi político e jornalista. No entanto não foi o seu desempenho como deputado, ministro, presidente do PSD ou diretor do jornal Expresso que o catapultaram para ser o mais forte candidato presidencial.
Se a sua notoriedade lhe adviesse apenas da sua participação ativa na vida política, nunca teria sido sequer candidato ou pelo menos um candidato tão forte; e afirmo isto sem nenhum desprimor para o conteúdo marcante da sua intervenção durante esse tempo.
No entanto, tal como agora, há cinco anos Marcelo Rebelo de Sousa pouco mais fez do que um passeio em campanha eleitoral, apesar da valia dos vários candidatos, como, por exemplo, o agora esquecido Sampaio da Nóvoa, um distinto académico e ex Reitor da Universidade Nova de Lisboa, com um percurso pessoal e profissional pelo menos tão meritório como Marcelo Rebelo de Sousa mas que nunca lhe deu uma notoriedade semelhante ao que este conquistou na televisão.
Marcelo Rebelo de Sousa que entrevistou na televisão o candidato presidencial General Ramalho Eanes e então Presidente da República, tratando-o como “senhor candidato” ou como “senhor candidato António Ramalho Eanes” faz, atualmente, questão de travestir a sua posição de candidato e presidente, quando não responde a perguntas incómodas porque, diz ele, é Presidente da República, caindo até os seus opositores que “nem patinhos”, quando, além de aceitarem que ele não responda, ainda o tratam o apenas candidato Marcelo como Senhor Presidente em pleno debate eleitoral.
O candidato Marcelo Rebelo de Sousa não pode escudar-se da sua posição como Presidente da República para dar a sua opinião – incómoda – sobre a eventual demissão da Ministra da Justiça!
No entanto, pode-se ou não apreciar a sua conduta política como Presidente da República mas ninguém tem dúvidas quando à adesão de Marcelo Rebelo de Sousa à liberdade, à democracia e aos valores universais da pessoa humana. Mas poderá não ser sempre assim por parte de um “homem show” que se candidate ao mais alto cargo da Nação!
Neste campo da notoriedade temos um caso muito semelhante com Marcelo Rebelo de Sousa que é André Ventura.
André Ventura foi conhecido também por um fenómeno televisivo como comentador de futebol com a particularidade de representar um dos clubes com mais adeptos. Só por isto é uma pessoa seguida e escutada por um vastíssimo número de telespetadores que, também não por acaso, são eleitores.
E assim, de uma penada, estes dois “homens shows” ganham uma notoriedade política suprema e muito desigual para com outros candidatos em eleições.
Quem virá a seguir? A Cristina Ferreira, o Manuel Goucha ou o Cristiano Ronaldo?
Aliás, mais inquietação existe, até com algum fundamento, sobre a personalidade política de André Ventura quanto à sua adesão à democracia, liberdade e aos valores universais da pessoa humana.
Quem poderemos ter a seguir, com este caminho? Um “Álvaro Cunhal” ou um “António Salazar” não declarados ou camuflados, mas oriundos de uma qualquer prestação televisiva de sucesso?
Neste ponto em análise – e refiro-me exclusivamente a este ponto – as candidaturas presidenciais com esta génese não dignificam a democracia, mas apenas a diminuem.
Nota : Estes artigos, por motivos de natureza pessoal, passarão a ter uma publicados de quinze em quinze dias às quartas feiras, deixando de ser publicados semanalmente como até aqui.
Autor: Joaquim Barbosa