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O novo Ministro da Saúde

Depois de alguns meses em que pairaram dúvidas, se desenharam cenários e se equacionaram putativas soluções para a instalada crise institucional, os resultados eleitorais ditaram, de forma absolutamente clara, uma nova configuração do mapa político em Portugal.

Tão clara quanto surpreendente, a avaliar quer pelo evidente desgaste de uma solução governativa imiscível nas ideias políticas e inoperante nas necessárias reformas, quer pelas insistentes sondagens que aventavam desfecho oposto.

Desde então, após comunicação do Sr. Presidente da República ao secretário-geral do PS, António Costa, sobre a intenção de o indigitar como primeiro-ministro, iniciou-se nova contagem decrescente, começando este último a preparar a equipa que vai compor o próximo Governo, cuja composição deverá ser em breve conhecida.

Fazem-se novas apostas e alvitram-se potenciais conjecturas para as mais diversas pastas, assentes em pressupostos vários: perfil dos candidatos, necessidades emergentes, tacticismo político, disponibilidade dos candidatos …. ou tão só colegiais amizades.

Centremo-nos na pasta da Saúde.

Desconhecendo-se, por agora, o(a) indigitado(a) para o cargo – embora a surpresa não deva vingar neste cenário – importa reflectir sobre o que deste se espera. Qual o perfil adequado do titular da pasta para poder lidar convenientemente com os enormes desafios que se colocarão em tão importante e sensível área de governação?

Desde logo, sublinharia, a necessidade de ser indigitado alguém que seja capaz de priorizar, em detrimento de fantasias ideológicas, os interesses do SNS e das populações.

É preciso alguém que olhe para a necessidade de um “novo” SNS. Recuperar o não-COVID, mas, sobretudo, incorporar o novo mundo social, tecnológico, laboral e digital que nos parece esperar. Mesmo num cenário endémico, não parece crível voltarmos a práticas de trabalho ou de convívio que sejam imunes à digitalização de muitos serviços. Por exemplo, tal como o crescente hábito das compras mais on-line ou de modelos híbridos de teletrabalho não se espera que regridam, também não é seguramente expectável que tenhamos de voltar atrás em relação a telemedicina, medicamentos de proximidade ou hospitais domiciliários.

Alguém capaz de liderar a agenda da verdadeira preparação do Serviço Nacional de Saúde para os desafios da digitalização (SNS 2.0), inequívocos depois da pandemia que atravessamos.

Adicionalmente à necessidade de ter uma nova visão sobre o SNS, manter-se-ão imutáveis (ou até agravados) os desafios de “manter as contas certas”, de definir novos racionais de organização e gestão, e alcançar ganhos de eficiência, transparência e responsabilidade.

Alguém cuja capacidade de decidir seja inequívoca e que tenha a sagacidade de saber traçar um rumo absolutamente claro, mobilizando profissionais de saúde e cidadãos, mitigando as incertezas que levam frequentemente a indecisões, sabendo que estas, quando está em causa a saúde pública, podem produzir nefastas consequências para uma comunidade ou, mesmo, para o País inteiro.

Alguém pouco permeável aos caprichos de terceiros e, em especial, às agendas do seu próprio ideário ou clientelismo político.

Alguém com capacidade para concretizar as muitas promessas, concretas, realizadas no passado recente tal como a redução significativa das listas de espera, o aumento do número de médicos de família que garanta uma cobertura da população acima dos 80%, entre tantas outras.

Alguém com a visão e organização capaz de aproveitar a oportunidade única para transformar os serviços de saúde pela utilização, de forma criteriosa e rigorosa, dos recursos financeiros que a União Europeia irá colocar à nossa disposição, seja pelo pleno aproveitamento dos fundos europeus do Portugal 2020, pela negociação do melhor acordo no âmbito do Portugal 2030 ou, ainda, pela concretização integral e atempada dos investimentos previstos no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

Perfil desejável traçado, resta-nos esperar que esse “alguém” possa nele encaixar e corresponder aos desígnios daqueles que anseiam por mais e melhor Saúde em Portugal.

Esse alguém chama-se “Marta Temido”? Sem prejuízo do mérito e resiliência demonstrados com a inesperada e muito impactante pandemia, em todo o resto caderno de encargos não parece muito…


Autor: Mário Peixoto
DM

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19 fevereiro 2022