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“O nosso País é o Planeta”

Desde a I Cimeira do Clima, em Genebra (1979), em que se reconheceu quão grave são as alterações climáticas para o planeta, à Conferência de Villach (Áustria, 1985), sobre a concentração crescente de gases com efeito de estufa (afirmou-se aí, que, se nada se fizer, a temperatura global no século XXI será maior que em toda a história da humanidade), à Cimeira do Rio (1992), em que 154 governos se comprometeram a não aumentar a concentração de gases com efeito de estufa, e, em 1997, em Quioto (cujo protocolo foi aprovado por 150 governos, com metas vinculativas de emissões de gases), todos os anos se efectuaram Cimeiras em favor do clima, até ao Acordo de Paris (2015), que define a meta de 2ºC para aumento da temperatura global em relação aos níveis pré-industriais, em compromisso voluntário das nações, sem penalizações.

2. Na verdade, a humanidade já ultrapassou o umbral da sustentabilidade desde os finais dos anos 70; hoje, está sobre-explorando o planeta uns 50% acima das possibilidades que este oferece: uma Terra e meia seria necessária para o nível de produção, consumo e contaminação que hoje temos. De facto, poucos eram os que punham em dúvida os efeitos devastadores do sistema industrial e comercial capitalista, não atendendo aos efeitos contaminantes da indústria, ao esgotamento da extracção e consumo dos combustíveis fósseis (e outras matérias-primas); quase nenhum economista contava os custos meio-ambientais da produção, comercialização e acumulação de resíduos gerados pelo consumo massivo; hoje, a economia ecológica rege-se por outros parâmetros, que não os do estrito lucro económico. Na verdade, uma civilização em que tudo tem um preço, é uma civilização na qual, no fim, nada tem valor.

3. As alterações climáticas são o maior problema do século XXI, e os Estados Unidos da América são um dos maiores emissores de poluição; em 2015, Obama estabeleceu uma redução, nos Estados Unidos, de 26% a 28% do seu nível de emissões de gases com efeito de estufa, num prazo de dez anos. O Acordo de Paris, assinado por 195 países (em vigor desde 4 de Novembro de 2016), pretende limitar a subida da temperatura mundial, reduzindo as emissões de gases com efeito de estufa, com metas de emissões de carbono para cada um dos países, num consenso invulgar entre quase todas as nações do mundo. Portugal ratificou o Acordo em 30 de Setembro de 2016 (o 5.º país da União Europeia a fazê-lo e o 61.º do mundo).

A decisão de Donald Trump de abandonar o Acordo de Paris é, pois, um retrocesso civilizacional, evidenciando crassa ignorância. Quem afirma que baixar as emissões são um golpe da China para prejudicar a indústria americana, não está bom do juízo, virado só para os seus interesses (e para os dos amigos bilionários no Governo). Têm sentido as palavras do Presidente francês Macron, da Chanceler alemã Merkel, do primeiro-ministro italiano Gentiloni, que obtiveram apoio um pouco por todo o mundo: “Consideramos irrevogável o impulso gerado em Paris em Dezembro de 2015 e acreditamos firmemente que o Acordo de Paris não pode ser renegociado uma vez que é um instrumento vital para o nosso planeta, sociedades e economias”. Macron, servindo-se do lema de campanha de Trump (“tornar a América grande), adaptou-o ironicamente à defesa do Acordo de Paris – “tornar o nosso planeta grande”, recusando qualquer negociação do Acordo de Paris: “no clima, não há plano B porque não há planeta B”.

4. Mas é nos próprios Estados-Unidos que as reacções duras não se fizeram esperar, com eventuais efeitos divisórios. O ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger, também actor e cineasta, depressa responde, sarcasticamente, ao Presidente norte-americano: “Nenhum homem pode voltar atrás no tempo – apenas eu consigo fazê-lo” – disse o actor, numa referência à sua personagem em Exterminador Implacável. Os governadores de pelo menos três Estados – Califórnia, Washington e Nova Iorque –, convidando a uma “Aliança Climática”, já fizeram saber que respeitarão as metas de redução de emissões definidas pela Administração Obama, e que poderão participar, em nome próprio, em futuras negociações internacionais. Além disso, as principais empresas do sector energético, do carvão ao gás natural e às renováveis, alertaram para o risco de serem afastadas de futuras negociações, temendo pelos seus interesses no estrangeiro. Trump não está “a fazer a América grande”, está a torná-la menor.

O autor não segue o denominado acordo ortográfico


Autor: Acílio Rocha
DM

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7 junho 2017