Desde logo se teceram algumas considerações menos abonatórias, algumas acrimónias e até alguns palpites de não ilegibilidade. Mas o cidadão Isaltino Morais tinha pagado a sua dívida para com a sociedade e por isso nada mais lhe devia; tem direito à cidadania com todos os direitos e deveres de qualquer cidadão comum. Com a sua eleição, os comentadores mais escrupulosos levantaram ondas de indignação, afirmando que a democracia fora atraiçoada, outros barafustando dizendo que se tratava de um escândalo democrático, a par de julgamentos menos abonatórios da idoneidade dos eleitores de Oeiras.
Fico-me a pensar o seguinte: será que Isaltino Morais não pagou pelos seus erros e estes não foram totalmente saldados com a sua prisão? Julgo que a maioria dos comentadores que se exaltaram com a escolha de Isaltino Morais, são tão puros, tão santos em seus atos e propósitos que não admitem um pecado ao seu semelhante. Tenho medo desta perfeição. Será que o voto tem implícito em si algum conceito moral e não é senão um número da estatística e percentagem? Isto é, quando deposito o meu voto no meu candidato, também lá lhe deixo o meu julgamento moral ou simplesmente me limito a votar para contagem? Talvez um pouco de tudo. Talvez eu queira para ele a perfeição que não tenho em mim.
O ato de escolha democrática tem sentimentos de simpatia pessoal, identificação ideológica, clubismo e habituações que o tempo solidificou; também terá juízos de valor de ordem comportamental do indivíduo? Julgo que sim. Que tem um pouco disto tudo. E os valores que se prendem com o arrependimento e o pagamento da dívida social também não devem lá estar implícitos? Julgo que este voto assim tão cheio de aderências não é um voto, é um tribunal.
Não compreendo a raiva dos que viram Isaltino Morais ser reeleito. Se foi reeleito, se voltou a ser presidente de câmara de Oeiras, é porque a sociedade de Oeiras lhe perdoou e disse nas urnas, “volta e não peques mais”. Bem pouco cristão me parecem essas exaltações de culpa sem perdão. Deus perdoa setenta vezes sete, estes não perdoam nunca. Faz-me arrepiar tanto puritanismo. Por outro lado eu estive a apreciar o rosto de Isaltino Morais, quando, no calor da vitória e no seio da alegria dos seus apoiantes, vinha para a sede de campanha: era um rosto iluminado por uma luz que não era a luz da vitória.
O seu rosto transparecia o perdão que lhe era dado pela sua gente e, talvez no íntimo de si mesmo, tivesse dito, acabou a minha expiação. Era a luz da redenção social que brilhava naquele rosto, era o perdão social daquela gente que sabe condenar e absolver com a mesma vara de justiça que ali brilhava como luz que se reacende. Até aqui, todas as conceções histórico-políticas, recusaram esta base real da absolvição social, ou pelo menos, consideravam-na como algo de acessório, sem qualquer possibilidade de redenção; Oeiras desmentiu tais asserções e soube pular por cima da história, derrotando a norma ortodoxa do castigo sem remissão. É por isso que a história foi sempre descrita de acordo com uma norma que se situa fora dela. Eis o fenómeno Oeiras.
Autor: Paulo Fafe
O fenómeno
DM
9 outubro 2017