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O exemplo de João Batista

Muitos dos que admiram o Carro dos Pastores fixam-se mais no ar ladino da pequenina criança que dá uma bofetada aos pastores e, depois, afaga um cordeiro, não pensando no conteúdo da canção que os mesmos pastores interpretam. Poucos tomarão consciência de que aquela cena lembra o nascimento miraculoso de João Batista e representa, o pequenino cordeiro, o mesmo Jesus, Cordeiro de Deus que pelos homens morreu e cujo aparecimento público João Batista veio preparar.

E quem se lembrou já de, no meio dos folguedos das festas sanjoaninas, pensar na mensagem que João Batista traz aos homens do nosso tempo?

2. Ao falar de João Batista, o evangelista Mateus (11, 7-15) recolhe o elogio que dele fez Jesus, começando por mostrar que não era uma cana agitada pelo vento. 

A vida de João Batista é um exemplo para os homens de hoje. A maneira, sacrificada e heróica, como soube viver, cumprindo escrupulosamente a sua missão; a sua inteireza de caráter; a sua coerência; a sua austeridade de vida; o seu amor à verdade e à justiça são atitudes que todos deveríamos imitar.

3. Não era uma cana agitada pelo vento. Não andava, diríamos hoje, ao sabor dos interesses de líderes partidários. Não era um vira-casacas, como esses que se colocam sempre do lado de quem dá mais. Não prestava culto a Deus e ao diabo. Não mudava de opinião conforme as pessoas com quem falava ou o ambiente em que se encontrava. O seu discurso era um só. Era um homem de princípios e não cedia ante qualquer contratempo ou ameaça.

Ele mesmo punha em prática a doutrina que pregava. A sua palavra era expressão da própria vida. Antes de recomendar penitência, praticava-a. Não oprimia os fracos nem incensava os poderosos.

A sua coragem mereceu-lhe a morte. Por ordem de Herodes Antipas, a sua cabeça foi servida numa bandeja. Foi esse o prémio de ter dito ao mesmo Herodes não lhe ser permitido viver maritalmente com a mulher do irmão.

Morreu no seu posto. Sem trair a sua missão. Soube morrer de pé. À Homem. Por isso ainda hoje é recordado.

4. Seria muito bom se a festa que fazemos nos levasse a seguir-lhe o exemplo. Se nos não acobardássemos perante os semeadores da mentira, da violência ou do ódio. Se, na ânsia de estarmos de bem com todos, não andássemos, aqui a levantar o punho cerrado e ali a envergar uma opa ou a pegar à vara do pálio. Se, em vez de pregarmos austeridade, evitássemos toda a forma de esbanjamento e de luxo. Se, em vez de dizermos serem necessários sacrifícios, começássemos por cortar em todos os  gastos supérfluos na vida individual ou familiar. Se, em vez de irmos para a praça pública clamar por justiça social, começássemos por remunerar devidamente os serviços que nos prestam e por repartir do que nos sobeja com quem não possui o necessário.

Se, em vez de lindos discursos contra a fome, não permitíssemos que em nossa casa se esbanjassem alimentos. Se, em vez de andarmos a encobrir as deficiências de A ou B, porque importa salvaguardar a imagem do Partido ou da Instituição, tivéssemos a coragem de nos abeirarmos das pessoas e lhes dizermos que não é lícito tomarem determinadas atitudes ou praticarem determinados atos. Se, em vez de andarmos agarrados a mordomias, à procura de tachos chorudamente remunerados ou de vistosos penachos, procurássemos, de facto, colocar todo o nosso engenho ao serviço de uma sociedade mais humana, mais fraterna e mais justa, onde os homens – mas todos os homens – tivessem a possibilidade de levar uma vida melhor.

 

Autor: Silva Araújo
DM

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22 junho 2017