Noam Chomsky e Gary Marcus, dois dos últimos protagonistas na WebSummit, confirmaram o que há muito se tem dito sobre os perigos das tecnologias, desde logo, a Inteligência Artificial (IA), para a Democracia. Não é de somenos que esta visão mereça de leigos na matéria, como eu ou o(a) leitor(a), uma visão despreocupada, mas uma análise tenta às suas conclusões, coloca o dedo na ferida e aponta caminhos sombrios para o ser humano. Os dois cientistas, a trabalharem em áreas distintas, apontam as suas conclusões para a mesma síntese: a democracia está ameaçada. A evolução da IA está ainda na sua fase inicial, mas as consequências para o nosso modus vivendi são já algo de concreto e assustador se tivermos em linha de conta que, no futuro próximo, a tendência para nos alienarmos em torno dos seus predicados, é mais significativa do que se possa imaginar. Há alguns anos, o Parlamento Europeu aprovou o “estatuto” da pessoa tecnológica”, sem que essa prerrogativa tivesse sido alvo de uma discussão alargada. Ao invés de tornar esta questão, um problema de permanente avaliação crítica, os deputados europeus aprovaram aquela designação com uma única preocupação: a capacidade de o ser humano poder desligar as máquinas, caso houvesse um perigo iminente para a vida das pessoas, o que parece, pela avaliação dos dois oradores, poderá acontecer já no próximo ano, ou seja, a morte de um ser humano provocada pela intervenção direta da Inteligência Artificial. Citados pelo jornal Público online, os dois protagonistas procuraram desmontar os argumentos de quem olha para a IA como o futuro com tudo o que de bom ela pode trazer para a qualidade de vida, ao lembrarem que esta tecnologia em nada contribui para a compreensão. À medida que a alimentamos com dados, a tomada de decisão artificial consegue manipular a realidade a partir de conclusões que ela retira do contexto sem a capacidade crítica necessária para perceber a cada momento o que e o que não é absurdo. Não resisto a citar o mesmo artigo de Victor Ferreira com o exemplo citado por si: “se perguntarmos à máquina o que podemos aprender com meias, o GPT-3 responde com frases gramaticalmente corretas, mas manda-nos comer meias depois de fazer meditação”. As conclusões, avançadas na WebSummit não são desprezíveis e ocorrem numa semana pródiga (mais uma) em que a reflexão sobre os perigos que a Democracia atravessa, tomaram conta das páginas dos jornais (ex. Marcelo Rebelo de Sousa e Pacheco Pereira). Num mundo, cercado por dados e que se alimenta deles, para a tomada de decisões, o papel da IA tornou-se fulcral dada a incapacidade humana para gerir e assimilar uma enorme quantidade de dados que de outra forma, se perderiam, tornando a nossa vida numa equação difícil, face à complexidade dos milhares de interações a que cada ser humano é sujeito diariamente, seja na vida real ou virtual. O dilema em torno do que fazer com a desinformação que pode ser alimentada continuamente e dessa forma fornecer informação errada, permitindo a manipulação, está a ocupar paulatinamente um lugar cimeiro nas preocupações dos decisores políticos, sem que, contudo, seja possível, estancar a sangria que aquela provoca, na capacidade inata do ser humano para distinguir a verdade da mentira. Os atos eleitorais são o melhor exemplo. O melhor da visão dos dois cientistas é terem deixado um testemunho perante 70 mil participantes, ansiosos por consumirem todas as novidades de soluções tecnológicas, que, se nada fizermos, seremos geridos por uma estrutura tecnológica, cuja inteligência, apesar de desmontada pelos exemplos que ambos trouxeram, tem o caminho facilitado face à ausência de uma perceção do perigo iminente para a vida quotidiana. O que fazer e como limitar o campo das sua ação e influência, parece não ter uma solução imediata por parte dos decisores políticos que claudicam perante os biliões de oportunidades (leia-se dólares ou euros) que esta criação proporciona. Talvez a morte provocada por uma decisão errada da Inteligência Artificial no próximo ano, desperte o mundo para um dos grandes enigmas atuais: quem vencerá? E para um dos dilemas fundamentais para a sobrevivência do ser humano: o que fazer?
Autor: Paulo Sousa