Os debates eleitorais, com cerca 30 escassos minutos, não permitem um confronto direto entre os diversos candidatos, até porque são debates/entrevistas onde cada candidato é por vezes interrompido pelas perguntas dos jornalistas.
Os jornalistas devem assumir a função de moderadores, introduzindo os temas, centralizando os debates se ele se desviar dos temas relevantes, mas abster-se ao máximo de serem interventores. São como os árbitros: são tanto melhores quanto menos se notarem.
Clara de Sousa, por exemplo, com a sua voz rude e seca, interrompe, lança perguntas em pleno confronto entre os dois intervenientes, interrompendo o fluxo argumentativo entre as partes e, por vezes, tem um tempo total de intervenção muito próximo dos candidatos em confronto.
No debate entre Rui Rio e António Costa esta tendência foi muito mais esbatida, os candidatos confrontaram-se mais diretamente, servindo os jornalistas como verdadeiros moderadores e introduzindo os temas em discussão.
Quanto ao seu conteúdo político, este debate valeu o que valeu pela atitude combativa de Rui Rio que atingiu em cheio António Costa logo no início do debate e afastou António Costa da sua zona de conforto, não permitindo que se fingisse de morto (usando a expressão de Marques Mendes ) como aconteceu nos debates anteriores.
De facto, Rui Rio foi demolidor quanto à denúncia do défice estrutural de Portugal, com o surgimento do défice externo nestes 4 anos de governo da geringonça, com aumento da dívida pública, com o estado de degradação dos serviços públicos e com a confirmação da existência benéfica do défice nominal mas devido, segundo explicou, à diminuição dos juros da dívida pública pelo Banco Central Europeu, pelo aumento grande dos dividendos do Banco de Portugal, fatores exógenos e não dependentes de medidas do governo, tendo também referido o aumento da carga fiscal e a diminuição do investimento público.
Aliás mais adiante, Rui Rio reforçou a sua posição quando defendeu que houve aumento da carga fiscal uma vez que a receita fiscal aumentou mais do que o Produto Interno Bruto e colocou António Costa a ter de se valer do investimento privado – pasme-se – num governo suportando por dois partidos comunistas!
A seguir a denuncia, alicerçado nos números do Observatório da Emigração, de 330 mil portugueses que no tempo de geringonça foram trabalhar para o exterior, correspondendo à população do concelho do Porto e de Viana do Castelo, atingiu também duramente António Costa.
António Costa reagiu aflito, como a sua expressão facial facilmente demonstrou, afirmando que o saldo migratório era positivo, sem apresentar um número que sustentasse a sua argumentação e sem esclarecer se se referia a portugueses que saíram de Portugal versus portugueses que regressaram a Portugal ou se se referia a portugueses que saíram de Portugal versus portugueses mas também estrangeiros o que, neste último acaso, fragilizaria ainda mais a posição do candidato do PS.
Aliás, esclarecedor foi a omissão de António Costa, por ser um fracasso até à data, do programa do governo de apoio ao regresso dos emigrantes portugueses.
Rui Rio esteve, como em quase todos os debates e entrevistas anteriores, muito mais solto, sorridente, mas sorridente com sonoridade – ao contrário do usual sorriso silencioso do seu interlocutor – com argumentos de fácil compreensão que destronaram por completo a habilidade política e tática de António Costa. O facto de ir algumas vezes ao encontro do seu adversário só lhe reforçou a autenticidade e integridade.
Assim, este debate, que muitos caraterizaram como o mais esclarecedor nos últimos anos, permitiu relançar em pleno a campanha eleitoral alterando a posição que, à partida, teriam os dois candidatos a Primeiro Ministro.
Autor: Joaquim Barbosa