A poucas centenas de quilómetros da fronteira ucraniana e ‘do outro lado da rua’ das fronteiras russas a Sul de Sochi – onde ficam muitos dos territórios georgianos ilegalmente ocupados desde 2008 – a região também está a mudar. A realidade do Cáucaso está a ser moldada em função da postura russa e da reação internacional que obrigou a novas estratégias, novas alianças e novas consequências.
Numa região dominada por três grandes polos de influência política e económica – a Federação Russa, a Turquia e a República Islâmica do Irão – as interdependências alteram-se ou aprofundam-se a uma velocidade cruzeiro na Geórgia, na Arménia, no Azerbaijão ou no Cazaquistão.
Desde o trágico mês de fevereiro, marcado pela re-invasão das forças russas ao território ucraniano (continuando a política que levou à anexação ilegítima da Crimeia em 2014), as alterações geopolíticas têm sido particularmente visíveis na área do Mar Negro.
Entre aqueles que, no passado recente, mais se revelaram fortes apoios da Federação Russa temos a Arménia e o Cazaquistão.
No Cazaquistão, onde os peacekeepers (vulgo exército) russos ajudaram o regime a controlar os protestos da oposição no último ano, a dívida e a lealdade do Presidente a Vladimir Putin determinam que a preservação da aliança é para durar.
Já na Arménia, o atual primeiro-ministro, que curiosamente preside à organização de aliados militares da Federação Russa, tem protagonizado capítulos interessantes num país onde as simpatias e as dependências perante a os interesses russos são evidentes. Ao longo dos últimos meses, Nikol Pashinyan, evitou reconhecer qualquer soberania aos territórios ocupados pelos russos na Ucrânia (evocando a política que a própria Arménia segue relativamente à república separatista Artsakh/Nagorno-Qarabag, constituída por mais de 90% de arménios, e que serviu ‘de desculpa’ para que outros aliados russos tomassem a mesma posição) e, simultaneamente, tem promovido reuniões privadas com líderes do mundo ocidental. Com isto, e sabendo da incapacidade russa para ajudar a travar a investida do Azerbaijão em território arménio enquanto batalham na Ucrânia, o governo arménio tem optado por uma abordagem soft aos Estados Unidos. É particularmente relevante ver que, aquando da incursão azerbaijã nas últimas semanas em Goris (na província arménia de Syunik), as primeiras reações vieram de Bruxelas e de Washington – e não de Moscovo.
Se, por um lado, Pashinyan tenta aproveitar esta aproximação para aceder à influência que o Ocidente tem sobre o regime do Azerbaijão com objetivo de alcançar um acordo de paz que não passe por nova secessão de território, naturalmente intermediado por Emmanuel Macron, por outro não é ingénuo ao ponto de subestimar a influência de uma potência que outrora foi ‘mãe’ para o seu recém-independente país. Do outro lado da fronteira, o Presidente Alyiev (Azerbaijão) está perfeitamente ciente do poder que tem nas mãos: é que o gás natural do Azerbaijão, sendo uma das poucas alternativas viáveis ao gás russo para os países do leste da EU (Bulgária e Roménia), dá-lhe uma vantagem política que raramente teve. E aqui reside o perigo para o Ocidente: a que custo virá, novamente, a energia para a Europa? Serão novas dependências de regimes autoritários a solução para as atuais dependências perante Putin?
Enquanto isto, a Geórgia (país que quer entrar tanto na União Europeia como na NATO e onde cresce o sentimento anti-Kremlin desde a ocupação de 2008) aprofunda as suas relações com o Ocidente – vendo-lhe já reconhecido o estatuto de ‘perspetiva europeia’ (essa bela invenção de Bruxelas) – e a Turquia, onde o Presidente Erdogan enfrentará duras eleições presidenciais no próximo ano, vai ocupando tanto o vácuo deixado pelos russos como o ódio gerado pelos americanos.
As aspirações turcas para a região são particularmente importantes para o Mundo – de Braga a Pequim. No caso de uma eventual invasão do Azerbaijão (aliado turco) ao Sul da Arménia, Istanbul passa a ter, com a conexão do Naquichevão a Baku, ligação terrestre e marítima entre todos os territórios onde a comunidade turca tem uma expressão relevante: da Crimeia ao Quirguistão. E esse seria o primeiro passo para uma reedição do ex-Império Otomano, com tudo o que isso acarreta para os balanços de poderes e para as atuais organizações internacionais multilaterais.
Hoje, aqui como no Cáucaso, não é só sobre energia. É sobre poder e sobre a paz.
Autor: Bruno Gonçalves
O Cáucaso e o Mundo depois da Guerra na Ucrânia
DM
22 outubro 2022