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O atrevimento dos comentadores

1 – Em recente crónica anterior, deixei aqui claro (suponho) porque é que era apenas «desinformação» a muita pretensa informação divulgada a propósito de uma Nota Pastoral publicada pelo Cardeal Patriarca de Lisboa sobre o acesso aos sacramentos de casais católicos re-casados civilmente. Resta abordar os comentários a que essa desinformação deu origem. Comentários igualmente desinformados e, consequentemente, atrevidos. 2 - Muitas foram as vozes – ao que me dizem – que, indignadamente, se levantaram contra uma alínea descontextualizada de um texto que não leram – ou não perceberam. Dessas muitas, só ouvi e li duas. E só dessas falo. Foi a primeira do Dr. Francisco George, prestigiado médico, antigo Diector Geral de Saúde e actual Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa. A segunda foi do conhecido jornalista Vicente Jorge Silva. Ambos dizem, basicamente, a mesma coisa: ambos dizem que não são católicos; ambos dizem que D. Manuel está a contrariar as indicações do Papa e a opor-se às mais recentes orientações da Igreja (este zelo pela ortodoxia por parte de dois não-católicos é comovente); ambos se empenham contra a famosa alínea e calam as outras e o texto que as justifica – não sei se por ignorância ou má-fé; ambos classificam a posição do Patriarca de «retrógrada»; ambos acham que, por isso mesmo, ela afasta as pessoas da Igreja (esta preocupação apostólica também é comovente); ambos acusam D. Manuel de não fazer aquilo que, exactamente, ele fez: obedecendo ao Papa, abrir caminhos possíveis, realistas, viáveis, para o regresso à Igreja dos recasados civilmente que o desejem; ambos mostram, em resumo, que não sabem do que falam. 3 - Mas há uma diferença entre os dois: enquanto a linguagem do Dr. Francisco George é acerada mas correcta, a de Vicente Jorge Silva é malcriada, desbragada, boçal mesmo. Depois de argumentar como atrás fica, conclui do alto do seu dogmatismo habitual que «a declaração» (não foi declaração nenhuma) de «D. Clemente» (sic – assim como se eu lhe chamasse D. Silva) é « ostensivamente retrógrada, absurda, estúpida e ridícula». E acrescenta: «de natureza hostil à orientação progressista de abertura e compaixão preconizada pelo actual Papa Francisco» – o que é rotundamente falso. Bem pelo contrário: é, para quem sabe ler, de obediência, fidelidade e comunhão de ideias com a referida orientação. Ao fim de 43 anos de Democracia, ainda há, entre os pensadores indígenas, quem só saiba argumentar insultando o oponente!!! 4 – Há na sociedade portuguesa um anti-clericalismo latente, maçónico, que, sub-repticiamente, não perde oportunidade de se manifestar, sempre de forma ínvia e não assumida. A modernidade, o espírito arejado e a invulgar estatura moral e intelectual de D. Manuel Clemente era um engulho para essa gente. Era difícil de atacar ou minimizar. A oportunidade surgiu finalmente: descontextualizando as suas palavras, desvirtuando-as, subvertendo-as de modo a sugerir que disse o contrário do que disse, conseguiram, por fim, atacar o Cardeal Patriarca de Lisboa e, através dele, a Igreja portuguesa. Porque a razão de ser do alarido e da desvirtuação – era essa. E só essa. Por decisão do autor, este texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.
Autor: M. Moura Pacheco
DM

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25 fevereiro 2018