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O agridoce

Devemos aoinvasor da Ucrâniauma série de” favores”. Estes vieram de factos desagradáveis e de muita dor para uns tantos milhões de ucranianos. São os chamados efeitos colaterais de uma guerra sem sentido. Depois disto, temos de considerar que esta guerra trouxe uma série de vantagens, a primeira das quais foi a aceleração, a nível mundial, da transição energética de fóssil para as energias renováveis, as chamadas energias limpas. Só por causa disto o sr. Putin merece que o recordemos como um falhado. Segue-se, a não menos importante, a demonstração de que havia um sentimento de união forte europeu. Para quem esperava que a Europa se dividisse ou até se digladiasse por causa de hipotéticas escolhas entre oriente e ocidente europeu, foi um tombo daqueles; que só não dizemos de gigante porque, no meu entender, Putin não passa de um ente pequeno repleto de frustrações mal curadas. No passado, não era senão um moço de recados do sistema comunista russo; lambendo muitas botas chegou a dirigente máximo da famigerada KGB e depois a presidente da Rússia como pagamentode livrar o seu antecessor, Yeltsin, dos tribunais; era mais que certa a acusação dos falhanços económicos enquanto esteve no poder. Estes caminhos fazem-se em compromissos pouco limpos e normalmente com muita reverência, obediência e continência. Todo o barro se amolda. Depois, com a recente reconquista de territórios no sul da Ucrânia, em Kherson, pelos seus valentes soldados e resistência dos seus habitantes, a bandeira ucraniana volta a drapejar alegre e altaneira no cimo da soberania de uma nação. O Sr. Putin não tem resposta para calar o estado de euforia com que as gentes acolheram as tropas ucranianas depois que o invasor se refugiou para a outra margem do Dniepre. “Só canta quem seu mal espanta”. O seu referendo dizia o contrário, mas era um referendo albardado à vontade do freguês. O seu exército, com voluntários forçados, com cadastrados e com mercenários, tem sido uma desilusão para quem orgulhosamente se auto intitulava como o maior e melhor exército do mundo. Talvez para paradas. O sr. do Kremlin demonstrou, sem reservas, a todos os seus cidadãos, como é urgente para a Rússia a sua substituição: economicamente está arruinada, os oligarcas estão a empobrecer, há gente a passar as maiores necessidades. No futuro a Europa encontrará outros fornecedores deixando a Rússia cada vez mais pobre e isolada do mundo. Se o Sr. Putin esperava ganhar a guerra com “o general inverno”, enganou-se redondamente; não contava, na sua visão estreita, com a solidariedade entre os países da Europa Unida; a sua voz na Europa já não dialoga, tornou-se um monólogo para consumo interno. Menos para os que o contestam. Quando a guerra acabar, a Rússia ficará ,assim, em vez do império sonhado ,um país martirizado e carenciado. Será um país mutilado no seu orgulho. Eis o agri do doce. O sr. Putin fez-nos o favor de (i) unir a europa, (ii) acelerar o uso das energias renováveis, (iii) demonstrar que a sua força militar não passava de um poderio de parada; (iv) a invasão da Ucrânia não era senão um desvario utópico restauracionista. Eis o doce do agri. Por tudo isto muito obrigado, sr. Putin, embora saibamos que os favores que nos fez foram tiros que lhe saíram pela culatra. Destino de um povo que passou da servidão dos czares para a escravatura comunista. Não há destino, o que há é habituação à canga.
Autor: Paulo Fafe
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21 novembro 2022