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O afeto pela Sagrada Escritura

A propósito do XVI centenário do falecimento de S. Jerónimo, ocorrido no passado dia 30 de setembro, o Papa Francisco publicou uma Carta Apostólica intitulada Scripturae Sacrae Affectus (O afeto pela Sagrada Escritura), título que reproduz uma expressão tomada da Oração Coleta da Missa da Memória Litúrgica do “incansável estudioso, tradutor, exegeta, profundo conhecedor e apaixonado divulgador da Sagrada Escritura” (Papa Francisco) que foi S. Jerónimo.

Recomendo a leitura deste documento, porque ajuda a conhecer melhor este Padre e Doutor da Igreja, “na sua obra de intérprete primoroso dos textos bíblicos; de defensor ardente e por vezes impetuoso da verdade cristã; de eremita asceta e intransigente, bem como de sábio guia espiritual, na sua generosidade e ternura” (Papa Francisco). Por todos estes motivos, já o Papa Bento XV lhe havia dedicado a encíclica Spiritus Paraclitus (15 de setembro de 1920), onde o apelida de “doutor eminente na interpretação das Escrituras”.

A importância da Carta Apostólica advém-lhe das muitas informações que nos dá sobre a vida de S. Jerónimo, mas também sobre o seu amor à Sagrada Escritura e o intenso estudo que lhe dedicou e sobre a tradução que dela elaborou. Num apelo vivo e atual, o documento termina com o convite a “amar o que Jerónimo amou”.

Do ingente trabalho de S. Jerónimo, destaca-se necessariamente a tradução do Antigo e do Novo Testamento, do hebraico e do grego para latim. Conhecida como Vulgata (de editio vulgata, edição popular), esta edição é “um verdadeiro monumento que marcou a história cultural do Ocidente, modelando a sua linguagem teológica” (Papa Francisco). Foi tão importante este trabalho que “a Europa da Idade Média aprendeu a ler, rezar e raciocinar nas páginas da Bíblia traduzida por Jerónimo” (Papa Francisco). A partir daí, no dizer de João Paulo II, “a Sagrada Escritura tornou-se (...) uma espécie de ‘dicionário imenso’ (P. Claudel) e de ‘atlas iconográfico’ (M. Chagall), onde a cultura e a arte cristã foram beber” (Carta aos Artistas, 5). De facto, “a literatura, as artes e a própria linguagem popular inspiram-se constantemente na versão jeronimiana da Bíblia, deixando-nos tesouros de beleza e devoção” (Papa Francisco).

Do muito que escreveu, há duas afirmações de S. Jerónimo que merecem destaque, aparecem referidas na Carta Apostólica e dizem muito da sua compreensão das Escrituras e da forma como lidava com elas: a leitura e tradução dos textos sagrados deve acontecer “no mesmo espírito com que foram escritos” (Praef. In Pentateuchum) e “a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo” (In Isaiam Prol.).

A publicação desta Carta teve lugar poucos dias depois do falecimento, a 18 de setembro passado, de D. Anacleto Oliveira, Bispo de Viana do Castelo e Coordenador da Comissão de Tradução da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa. Quem o conheceu e lidou de perto com ele sabe do seu amor à Sagrada Escritura e pode testemunhar o empenho e zelo que colocou no projeto da tradução em causa. Não será descabido afirmar que, distantes no tempo, S. Jerónimo e D. Anacleto foram próximos na paixão pela Sagrada Escritura e no empenho e zelo que colocaram na sua tradução.

Quero crer que os Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael (29 de setembro) e o próprio S. Jerónimo (30 de setembro) acolheram D. Anacleto na serena paz do Paraíso e são testemunhas da recompensa divina pelos seus muitos trabalhos e canseiras ao serviço da Sagrada Escritura que amou e estudou, traduziu e divulgou.

*Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)


Autor: P. João Alberto Correia
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12 outubro 2020