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O ABSTENCIONISMO LUSITANO CONTINUA

As eleições presidenciais lá se realizaram normalmente. Penso que nenhum dos concorrentes ao cargo de Presidente da República questionou os resultados. Mas se tudo decorreu em paz, a verdade é que os eleitores não primaram pela sua contribuição activa.

Ao que se apurou, o”partido” abstencionista engordou substancialmente, atingindo o melhor resultado até hoje conseguido: 60,7% (6.530.350 votos) neste tipo de eleições. O seu triunfo não é, com certeza, uma alegria para quem pensa que a democracia obriga moralmente o cidadão à participação activa nos assuntos que devem preocupar todos os habitantes dum país. Pelo contrário, entristece-o profundamente, quando verifica que a maioria dos votantes ficou em casa, num dia aliás em que as condições climatéricas não convidavam, como em outros actos eleitorais, a um bom passeio até à praia ou a algum lugar agradável e descansativo. O confinamento convidou, supomos, muitos a não sair, mas há razões que não desculpam tanta apatia ou tanto desinteresse. Se é preciso sair em situações importantes (mesmo quando é obrigatório o uso da máscara), escolher o Presidente da República de Portugal é uma delas.

Temos um candidato legalmente escolhido. No entanto, e sem que isto seja uma razão que levante qualquer dúvida sobre a validade do acto eleitoral, quem é posto em lugar de tanta responsabilidade com 60,51 % do total dos votantes deverá sentir algum desconforto. Além de que, havendo uma quantidade de eleitores que atinge os 10.736.096, a percentagem vê-se drasticamente empobrecida, se comparada com este último número: é apenas de 23,6% da totalidade de cidadãos que podem exercer o seu direito de voto. No fundo, o nosso Presidente da República foi escolhido apenas por uma parca minoria.

Engordando um poucochinho os números, dir-se-á que de cada cem eleitores só tiveram comportamento participativo 40. Ou se, para uma festividade importante e significativa, alguém convidasse para um jantar 10 amigos, só 4 é que apareciam. E os 6 que não foram, nem sequer se davam ao trabalho de explicar a sua ausência...

O total de votantes foi de 4.261.200. O que indica que o número de abstencionistas atingiu o 6.474.096. E os 60,51 % de Marcelo Rebelo de Sousa deram-lhe 2.533.799 votos.

Venceu o partido da “Abstenção”, que representa o número de eleitores que não apareceu nas mesas de voto. As razões são muito variadas, certamente. E não podemos fazer um juízo negativo daqueles que, por motivos de força maior, não deram o seu contributo. De qualquer maneira, houve quem tentasse exprimir algo diverso com a seu contribuição efectiva nas urnas: 47.041 votos em branco (1,10%) e 39.098 nulos (0,94%).

Parece que o português já se acostumou, por negligência ou reiterada preguiça, a ficar em casa - ou fazer férias eleitorais - com o maior desplante e confiando no bom senso daqueles que dão o seu voto como que em sua vez. “Eles lá sabem...” Ou então: “Eu não estou para isso.. Votem em quem quiser...”

Somos um povo pacífico e cordato. Não levantamos muitas ondas com a nossa conduta. E cruzamos muitas vezes os braços perante o que acontece, lamentando com sinceridade se há alguma desgraça ou sentindo um verdadeiro contentamento quando as coisas correm bem. E também temos um sentido crítico muito fácil, julgando tudo e todos quando um assunto não nos agrada ou nos toca a nossa maneira de ver, nem sempre fundamentada em causas reais.

Enfim, somos o que somos e como somos. Nem tudo é positivo em nós. E se podemos evitar uma “chumbada” de entrar numa fila de eleitores que, no nosso parecer, nunca mais se despacha, a melhor solução é ficar em casa, tranquilamente, vendo algum programa de televisão que nos cativa nessas circunstâncias, e concluindo que o nosso - o meu voto - não aquece nem arrefece: é apenas menos um e como a fila de eleitores é muito comprida, ficaria pior do meu reumatismo...

Abrimos a televisão no programa que habitualmente nunca espreitamos, mas que vamos ver agora, porque já houve alguém que opinou ser bastante interessante. Há um bom sofá onde nos acomodamos com sumo cuidado à hora indicada, esperamos pelo fim da publicidade sempre maçadora na TV, e aí nos firmamos, horas e horas a fio. Talvez da parte da tarde se durma uma soneca reconfortante e, enfim, esperamos que os diversos canais, a partir de certa hora, nos dêem as sondagens que acertam, mais ou menos, no alvo com um bastante rigor. E, lá diz o povo, “a vida continua”...


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

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30 janeiro 2021