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Novo ano catequético

Dentro de pouco tempo – se não se abriu já em alguns lugares – iniciar-se-á um novo ano catequético, sobretudo nas nossas paróquias e nos centros de ensino onde se procura que os alunos, pelo menos os que estão interessados, aprendam a olhar a realidade como um dom criado por Deus.

Não se trata, assim, de ministrar alguns conhecimentos, entre outros, para quem, no ambiente familiar, não recebe uma formação cristã séria e não entende muito bem o sentido daquelas aulas, que, em princípio, têm como objectivo completar os dados da fé e da verdade cristãs, que os alunos recebem em casa, através da educação que os seus progenitores lhes ministram.

Da minha experiência como pároco, recordo, com tristeza, mas ao mesmo tempo dando graças a Deus, aquelas crianças que vinham à catequese trazidas pela avó ou pelo avô, que tinham conseguido – ao menos isso! – que os seus netos contactassem com as realidades religiosas, das quais, pai e mãe, andavam profundamente afastados e indiferentes. Aliás, com certa frequência, algum aluno ou aluna não aparecia nas aulas, porque era a vez de estarem com o pai, que não vivia na mesma casa da mãe, pois conhecera uma nova companheira com quem coabitava…

É preciso ter em conta também, que o bom “costume” de “ir à catequese”, na vida de muitas crianças, termina, após a “festa” da Primeira Comunhão. Passado este evento, libertam-se de receber mais formação cristã. É o fim, também, da prática de ir à Missa aos domingos – se é que as crianças já nem se preocupavam com isso durante a catequese, porque os pais, uma vez mais, aproveitavam esse dia para, olimpicamente, como bons burgueses, descansarem de todas as preocupações e obrigações.

Não queremos ser nem negativos nem pessimistas, pois temos consciência de que as nossas catequeses são, por especial amparo divino, o sustentáculo da futura vida cristã da maioria dos nossos fiéis. No entanto, devemos estar precavidos para a insuficiência deste meio de formação no ambiente social que hoje vivemos. Há uma laicização muito forte e os costumes cristãos, não raramente, são relíquia do passado. Por isso, é preciso que nos esforcemos por fortalecer aquilo que, talvez há uns anos atrás, fosse mais ou menos o sustentáculo razoável da fé. Hoje não é. Isso acabou. Ou se dá uma formação mais vigorosa, ou há um esforço sério por captar os jovens para uma continuidade de aprendizagem da sua fé, ao mesmo tempo que se alerta os pais para a necessidade de haver uma concordância entre o que ensinam e praticam em casa e o que os filhos vão receber nas aulas de catequese, ou a paganização das mentalidades e dos costumes continuará a crescer irremediavelmente. E todo este programa de renovação só conseguirá alcançar os objectivos pretendidos, se for almofadado com vigor, constância e sem desânimo, por generosa oração e paciência por parte dos párocos e responsáveis pela catequese.

É que não basta apenas adequar cristamente os alunos à prática religiosa que a Igreja estabelece, mas de os levar a conhecer aspectos da vida moral cristã que nos parecem óbvios, mas que estão esquecidos e confundidos, numa amálgama desconcertante de preconceitos e de convicções. Por exemplo: é um pecado indecoroso para um jovem ocultar aos pais que, de vez em quando, se não pernoite em casa para poder encontrar-se intimamente com uma colega ou a namorada. Esta relação, contudo, em si, é encarada como uma conduta normal e inócua, sob o ponto de vista ético, entre os jovens da sua geração. Por isso, não faz parte dos “stocks” de pecados do sacramento da penitência. Ter-se-á apercebido, na catequese, da existência do 6.º e do 9.º Mandamentos da Lei de Deus?

Enfim, vamos olhar com confiança para o recomeço das actividades catequéticas, que continuarão a ser um instrumento valioso e absolutamente necessário para a vivência da fé cristã. Mas tenhamos consciência de que, nos tempos actuais, precisamos de as repensar e de as vigorizar, porque as circunstâncias o exigem. As crianças crescem e precisam de uma formação mais profunda, porque o ambiente que encontram à sua volta exige mais e melhor.

E nem sempre responderão aos desafios que a vida lhes lança com aquela simplicidade de uma rapariga de cinco ou seis anos, que depois de uma perrice tremenda, na presença da mãe e de um irmãos um pouco mais velho, dele ouviu uma sentença oportuna. “Depois do que fizeste, precisas de pedir perdão. Nosso Senhor disse que devemos perdoar até setenta vezes sete!” A mãe, surpreendida com a reacção do filho, perguntou à garotita: “Percebeste o que o teu irmão te disse?” E ela respondeu: “Ó mãe, na escola, ainda não nos ensinaram a tabuada...” Às crianças das nossas catequeses é necessário ensinar muito bem a “tabuada”…


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

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7 setembro 2019