Desde menino, que me habituaram à ideia de “Novembro – mês das Almas”. Manhã cedo, minha saudosa mãe acordava-me, para ir à missa ou a esta ajudar, aliviando, assim, – dizia-me – “as alminhas do Purgatório”... Novembro era, pois, um mês noturno, nevoeirento, gelado, cheirando a mofo...!
Mais tarde, já crescido e de olhos mais abertos pela idade e estudo, fui distinguindo, à minha volta, luz e sombra no que ia conservando relativamente às celebrações de “Festa de todos os Santos” e “Festa dos Fiéis Defuntos”, respetivamente um e dois de Novembro...
Sentimentos contraditórios sentia-os e conservava-os nas visitas ao Cemitério-dormitório, segundo uns, final de marcha-fúnebre, segundo não poucos...!
Cemitério, em Féis Defuntos – feira franca de lágrimas sinceras, misturadas também com vaidadesinhas mal disfarçadas...!
Ocorrem-me, a propósito, os versos dum poeta e por ele cantados – o célebre Dr. Machado Soares (Juíz):
«Quando eu morrer, rosas brancas / para mim ninguém as corte! / Quem não as teve na vida / também as não quer na morte»
Linda quadra! Como que a querer dizer: – trazei-me flores enquanto eu for vivo! Não as guardeis para quando cinza eu for...!
Na minha mente surgem ainda outros versos do citado Dr. Machado Soares: – «Quando eu morrer, nem sequer / na campa, uma cruz erguida! / Para calvário, já basta / a cruz que eu levo na vida!»...
Tantas cruzes, cruzinhas, cruzeiros e cruzetas...! A lembrar o quê!? A lembrar a salvação!? Mas esta, no antes ou depois da morte,!? A lembrar o Sofrimento!? Mas de quem!? Os “dormientes” do cemitério já nada gozam nem sofrem...!
Enfim: Novembro lembra-me realidades, vaidades, fantasias, expressões de sentimentos, aspirações de fé...!
Novembro é sombrio, mas espalha luz! Arregala os olhos, para ver “além do aquém”...! Cemitério é um livro escancarado, onde podem ser lidas lições sublimes de contradição...! Faz soar o «hoje, eu – amanhã, tu»...!
Morte é sono (definitivo do corpo e do Eu...!?
Mistério insondável – ao menos, para mim, ainda Crente...!
Autor: Nunabre