É este mês, de acordo com a tradição cristã, o mês das almas. Nomeadamente, das almas das pessoas que já partiram deste mundo. Sem esquecer, porém, que cada um de nós tem uma alma imortal desde o momento em que, por vontade de Deus, passámos a existir. Somos suas criaturas, por Ele destinadas a uma felicidade indescritível, que é o Céu, onde participaremos da própria felicidade divina, que é eterna e perfeita.
No entanto, este fim, se é uma dádiva da graça de Deus, tem de ser conquistada por nós, procurando que a nossa conduta se coadune com a vontade de Quem nos trouxe à vida, que nem sempre é fácil de enfrentar. Jesus Cristo lembra-nos essa realidade, quando, no Jardim da Oliveiras, pouco antes do seu aprisionamento, dizia: “Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice. Mas não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 23,44). A sua mente previa todo o sofrimento por que tinha de passar para obter a nossa Redenção, mas nem por isso rejeita o que o Seu Pai Lhe pede. Se devemos cuidar do acerto da nossa alma com a vontade de Deus em todas as circunstâncias da existência, não podemos esquecer que quando S. Pedro, talvez com um certo receio de exagerar, perguntou a Cristo se a bitola do nosso perdão para quem nos ofende deve ir até sete vezes, a resposta que recebeu do Senhor foi totalmente distinta: até 70x7.
Tudo isto nos leva a entender que, por um lado, o Senhor é um perdoador por excelência. E, por outro, que por detrás desta atitude, ela assenta fundamentalmente no grande amor que nos tem, do seu sentido de responsabilidade em relação à nossa condição de pecadores e ao desejo firme que Ele acalenta em nos salvar. Jesus tem consciência das nossas múltiplas fragilidades, debilidades e traições. Por detrás de cada falta nossa, há sempre o perdão divino, desde que procuremos arrepender-nos e pedir-Lhe desculpa pelo mal que fizemos.
É triste, porém, verificar a existência de almas que o recusam de maneira absoluta, pelo que o convite à felicidade celestial que Deus lhes propõe é substituída por uma rejeição orgulhosa e perene, que as deixa entregues à sua soberba na infelicidade do inferno, fazendo companhia a todos os seres angélicos, como Satanás, que, antes de si e de todos os homens, também se negaram a ser fiéis à vontade do Criador. O mundo da soberba e da deslealdade, do pecado, em suma, conduz a este estado de total infelicidade, não remível, porque quem a ele pertence, por decisão pessoal e livre, rejeita com constância inamovível a graça do amor divino.
Situação absolutamente diversa é a das almas que, embora toldadas pelos pecados que realizaram nesta vida terrena, morreram na graça de Deus. Perante a felicidade do Céu, que é perfeita, sentem por si uma incapacidade de a assumir em plenitude, pelo que pedem a Cristo, seu Salvador, que as deixe purificar de toda a mancha das suas faltas. As almas do purgatório não são desesperadas ou até infelizes. Se sofrem, tal como o doente que tem de se sujeitar a uma terapêutica dolorosa para conseguir curar-se, têm a certeza - o Senhor assim lhes garantiu com a sua misericórdia infinita -, que esse estado é provisório e alcançarão a plena e absoluta felicidade celestial.
O Céu é a garantia total e inamovível de serem recebidas amorosamente pelo seu Criador, por Jesus Cristo, Redentor, e ainda pelo Espírito Santo, que as iluminou e animou a fazer a vontade divina nas diversas situações da sua passagem por esta vida terrena. Felicidade inextinguível, amor absoluto, satisfação plena de tudo o que é um bem para o ser humano. Aí gozam da companhia de todos os anjos fiéis e santos, de entre os quais distinguirão, muito agradecidas, o seu anjo da guarda, que tanto as ajudou a fazer o que Deus lhes sugeria, sobretudo nas circunstâncias mais espinhosas e duras. E, como se isto não bastasse, sentirão, no sorriso com que as recebe Maria Santíssima, o auxílio e a veracidade do carinho que lhes devotou a esposa de S. José, as orações que despendeu pela sua salvação, enfim, através dela, compreenderão de modo absoluto que o amor de Deus por nós é tão grande e forte, que quis ser amado por Maria como sua Mãe, a fim de que a distância entre o Criador e a criatura fosse diminuída, aproximada e até facilitada pelo mesmo amor maternal.
Autor: Pe. Rui Rosas da Silva