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Nossa Senhora no coração dos artistas

A devoção à Virgem inspirou os artistas, desde tempos remotos, a exteriorizar o seu mais profundo sentimento, estampado nas suas criações artísticas. Infelizmente, muitas dessas obras não chegaram até aos nossos dias, devido à barbárie de tantos povos que as destruíram. Apesar disso, ainda se conserva uma grande riqueza iconográfica inspirada na figura da Mãe de Cristo.

Na capela grega do Cemitério de Priscila, em Roma, relata a obra que estou a ler, existe a mais antiga imagem que se conhece da Virgem Maria, «cujo protótipo tem, certamente, origem helenística: a pintura a fresco da primeira metade do século II que representa a Profecia de Isaías que se encontra numa câmara sepulcral.»Uma imagem que nos revela a simplicidade da «Virgem sentada, envolvida numa túnica de mangas curtas e com a cabeça coberta com um véu transparente e pequeno, tem ao colo o Menino Jesus completamente nu, virado e com a mão direita sobre o seio de Sua Divina Mãe…»

A figura de um homem, ainda jovem, vestido de uma forma simples, indica, com a sua mão direita, a figura de Nossa Senhora com uma estrela que brilha sobre a sua cabeça. Muitos diziam ser a imagem de S. José, mas chegou-se à conclusão que ela era Isaías à semelhança de uma escultura do século V existente em Cartago e outra pintura a fresco da segunda metade do século III, com as mesmas caraterísticas, que se encontra no Cemitério de Domitila, em Roma.

Outra imagem do século III, simbolizando a Divina Maternidade, a Virgem, sentada numa cadeira e com o Menino Jesus ao colo, muito jovem, com os cabelos castanhos, vestindo uma túnica até aos pés pousados no chão, com tons de cinzento-azulado, provida, apenas, de uns galões é um dos exemplos de modéstia, da simplicidade de Maria retratada, nessa e em tantas outras imagens, como a verdadeira mulher com um coração humilde, mas coroada como rainha dos céus e da terra. Posso, na minha modesta opinião, ver, na imagem de Nossa Senhora, sentada na Capela da Imaculada do Seminário de Nossa Senhora da Conceição, um exemplo dessa antiga inspiração artística.

S. Lucas, Evangelista, pintor e médico pintou as famosas Madonas. Pensa-se que o protótipo dessas imagens só tenha sido executado a partir do século VI, embora, segundo li, fossem divulgadas no ano 200.

Esta linguagem visual mariana inspirada nas Profecias de Isaías, na Divina Maternidade, no Calvário e na Virgem do Céu foram evoluindo em representações e em materiais diversificados: «frescos, mosaicos, iluminuras, estatuetas, marfins, selos de chumbo, medidas de metal, estelas, vasos, placas de argila, braceletes, tecidos, bordados…»No século XII, já era notória toda essa transformação artística, jamais parando até aos nossos dias, de acordo com a evolução dos materiais e da visão artística dos autores.

Os quatro evangelhos e o Proto-Evangelho de S. Tiago são bases inspiradoras das representações marianas ao longo dos tempos, mas os temas mais vincados nos primeiros anos do Cristianismo foram: a Anunciação, a Visitação, a Natividade e a Adoração dos Magos, mas muitas relíquias da cultura latina, que teve um grande crescimento no ocidente, foram destruídas, sobretudo pelas invasões bárbaras do século V, valendo os mosteiros em que os religiosos conservaram tradições culturais, verdadeiros “centros da cultura religiosa da Europa Ocidental, do sul da França e do norte da Espanha.

Sob esta influência e, mais tarde, com as vitórias do exército cristão aos muçulmanos e com o fervor cristão, fé muito intensa dos povos da antiga Lusitânia, tendo também presente a ordem de Cluny (nascida em França em 910 e extinta em 1790, formada dentro da ordem de S. Bento na cidade francesa de Cluny, numa altura de grande crise religiosa, mesmo no interior da Igreja, chamando novamente os homens a uma espiritualidade, através de uma reforma monástica baseada na Regra de S. Bento), o período da reconquista cristã e o alvorecer da nacionalidade, aparece «uma arte singela e rude, mas devota e profundamente cristã, inspirada em sentimentos de piedade e em louvor de Santa Maria Mãe de Deus.»

Principal fonte destas crónicas:“Fátima Altar do Mundo”, 3 volumes, sob a direção literária do Dr. João Ameal da Academia Portuguesa da História; direção artística de Luís Reis Santos, historiador de arte e diretor do Museu Machado de Castro, Coimbra; realização e propriedade de Augusto Dias Arnaut e Gabriel Ferreira Marques, editada pela Ocidental Editora, Porto, em 1953.


Autor: Salvador de Sousa
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15 dezembro 2018