Estalando-lhe o verniz em plena Assembleia da República aquando da votação do Orçamento de Estado para 2018 (OE2018), Mariana Mortágua desanca, forte e feio, no grupo parlamentar do Partido Socialista (PS) e, concomitantemente, no primeiro-ministro, António Costa; e os mimos da deputada do Bloco de Esquerda (BE) encaixam, na perfeição, naquela atitude desleal e flibusteira de quem não cumpre o que promete.
E deu gosto ver o silêncio encabulado dos socialistas, bem como as orelhas a arder do primeiro-ministro e restante governo, perante a resiliência da acusação da deputada bloquista; como igualmente se adivinha o risinho irónico que devia ter varrido a bancada comunista ao constatar a rasteira que os bloquistas sofreram, fruto, sem dúvida, do lirismo e ingenuidade políticos de que ainda padecem.
Pois bem, a razão desta infidelidade do PS para com o parceiro parlamentar de governação é muito simples: os bloquistas acordaram com os socialistas a aprovação de uma sua proposta no OE2018 cuja finalidade era a criação de uma nova taxa sobre as Energias Renováveis a pagar pelas empresas elétricas e que daria um encaixe de 250 milhões de euros para o Estado; e, como resultado da aplicação da referida taxa, as famílias e as empresas beneficiariam de uma redução nos custos da energia por elas a pagar.
Ora, neste particular, a proposta do Bloco de Esquerda tinha um alcance social de aplaudir e, assim, ia de encontro à sua prática ideológica, frequentemente badalada, de que os ricos que paguem a crise taxando-se, por exemplo, as grandes fortunas; só que o Governo, refém de acordos com os donos das Energias Renováveis, dificilmente se sairia a rir se levasse avante a proposta do Bloco de Esquerda.
Agora, vejamos a forma ardilosa como os socialistas e o Governo (porque penso que António Costa e seus ministros estavam a par da situação) procederam: na sexta-feira, dia 24 de setembro de 2017, ficou acordada a aprovação da referida proposta, mas na segunda-feira, dia 27 de setembro de 2017, na sua votação parlamentar é chumbada pelo grupo parlamentar socialista.
Já após esta cena, António Costa na festa do 2.º aniversário do seu Governo, em Aveiro, afirma perentoriamente que palavra dada é sempre palavra honrada! Vejam lá como as coisas são: ou mente o primeiro-ministro ou mente Mariana Mortágua; e, em qualquer circunstância, seja num primeiro-ministro, seja num deputado a mentira é inadmissível, sobretudo em atos governativos.
Todavia, aplaudo a atitude frontal de Mortágua, pois António Costa nunca foi gago a proclamar a honradez da palavra dada, só que, como a tradição já não é o que era, os bloquistas ficaram a chuchar no dedo, que é como quem diz, a chuchar no seu fervor militante e a ver a sua proposta por um canudo ou seja a ter o destino do caixote do lixo; o que motivo era mais do que suficiente para baterem com a porta do apoio parlamentar e deixarem de andar a encher pneus ou a caçar bonés para o Governo.
Mas, agora, pergunto eu: até quando o concubinato (PS,PCP e BE) se vai aguentar com infidelidades deste jaez? Penso que António Costa e o PS já estão a olhar para longe, ou seja, para as próximas legislativas e a apostarem numa descolagem do triunvirato à espera de eleições antecipadas, convocadas pelo Presidente da República ou provocadas pela oposição que endureça após a escolha do líder do PSD; e, aqui, só terão a ganhar perante o seu eleitorado que, neste momento, os veem como responsáveis por uma geringonça escangalhada.
Em conclusão, das três, uma: ou o PS e o Governo querem ir embora ou o PS e o Governo sabem que o Bloco de Esquerda não larga o osso da concubinagem ou ambos estão a fazer um monumental bluff e a deitar poeira nos olhos do povo, fazendo-lhe o manguito; todavia, seja qual for a situação, alguém tem de pôr termo a esta coboiada que o povo não aprovou e, apenas, foi levado por um golpe institucional de António Costa ao fabricar a geringonça.
E, por isso, só vejo tuna solução: demita-se o Governo e convoquem-se eleições antecipadas; e, assim, se reponha a verdade democrática.
Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado
Nortadas: Palavra dada mas não honrada
DM
6 dezembro 2017