Os resultados das Eleições Legislativas do último domingo foram uma surpresa. Todas as sondagens e estudos de opinião apontavam para uma aproximação do PSD ao Partido Socialista, ao crescimento do Chega e da Iniciativa Liberal e a um decréscimo acentuado da CDU, Do Bloco de Esquerda e do CDS/PP.
No que toca aos dois primeiros, verificou-se que ao contrário do que era assegurado, nem só o PSD não se aproximou, como também o Partido Socialista se distanciou obtendo uma vitória retumbante, o que coloca António Costa como o maior vencedor desta contenda e com lugar de destaque na história do seu partido.
Naturalmente, conseguir uma maioria absoluta depois de seis anos de governação em que teve de lidar com uma pandemia de grandes proporções e com uma crise económica e social, é um feito dificilmente repetível.
Quanto ao PSD, acredito que Rui Rio ao recentrar o partido não conseguiu concentrar em si os votos da direita, contribuindo com esta atitude que muitos eleitores se refugiassem no Chega e na Iniciativa Liberal. Embora pusesse o seu destino político nas mãos do seu partido, penso que deveria ter ido mais longe.
No que diz respeito ao CDS/PP, as guerras fratricidas que Francisco Rodrigues dos Santos teve com o seu grupo parlamentar e a incapacidade em fazer pontes com muitos militantes da antiga direção de Assunção Cristas só poderiam conduzir ao descalabro que se veio a verificar. Nem nos piores momentos do “partido do táxi”, quando apenas fez eleger quatro deputados, tinha batido tão fundo. Francisco Rodrigues dos Santos teve a dignidade de se demitir, embora dificilmente tivesse outra saída.
Em relação aos resultados do PAN, confesso que não fiquei surpreso. Julgo que será mais uma formação episódica, que já teve o seu momento de maior glória e que dificilmente se reerguerá.
No que concerne às formações da extrema-esquerda, CDU e Bloco de Esquerda, que viram as suas representações parlamentares fortemente diminuídas, foram vítimas da sua estratégia ao chumbarem o Orçamento de Estado para o ano em curso, sendo penalizados pela interrupção da estabilidade que o país vivia e que muitos eleitores não perdoaram.
Neste rescaldo do ato eleitoral do passado domingo, muito mais haverá para dissecar e comentar nos próximos tempos.
Iniciar-se-á um novo ciclo na sociedade portuguesa, onde o Partido Socialista não terá desculpas para pôr em marcha as suas políticas e António Costa não terá alibis para não colocar Portugal na senda do desenvolvimento e do progresso. Se a sua responsabilidade já era grande, agora, face ao poder que os portugueses lhe concederam, será ainda muito maior.
No que à nova composição da Assembleia da República diz respeito, afirmo a minha curiosidade quanto ao comportamento das representações parlamentares da Iniciativa Liberal e do Chega e o posicionamento que o PSD irá adotar, após a previsível saída de Rui Rio da liderança.
Abre-se uma nova etapa na sociedade portuguesa, onde não faltarão motivos de discussão, de meditação e análise.
À direita exige-se uma profunda reflexão e um estudo sobre os caminhos a seguir e aos partidos da extrema-esquerda, do mesmo modo, uma grande ponderação sobre o seu papel nestes tempos do século XXI.
No meio deste verdadeiro abalo político, resta-nos serenamente confiar nas instituições, na democracia e no Estado de Direito e esperar que Portugal progrida e avance.
Apesar de comungar dos receios de uma maioria absoluta, acredito que uma eventual tentação de tudo controlar que o poder absoluto sempre confere, terá na instituição Presidência da República o antídoto capaz de travar essas eventuais vontades.
Acreditemos na mudança e esperemos melhores dias para todos os portugueses.
Autor: J. M. Gonçalves de oliveira